Não vou mentir. Não fico muito entusiasmada com o Natal. E isto para usar um eufemismo. Todo o alegado “espírito natalício”, as luzes, os doces, as compras, os enfeites, as frases feitas, as árvores de Natal, os pais Natais, os programas tipo “Natal dos Hospitais”, as canções, as “Boas Festas”, o bolo rei (bahh, detesto frutas cristalizadas!), o marketing, as mascotes das cadeias de supermercados a aparecer a toda a hora na rádio e na televisão, … Enfim, uma lista infindável de coisas que se repetem todos os anos, sem nada de original e tendencialmente cada vez mais maçadoras, que eu dispensaria de bom grado. De muito bom grado mesmo. Mas é inevitável. Ele está por todo o lado, é lembrado a toda a hora e nos dias 24 e 25 de Dezembro vou ter mesmo que o enfrentar, com sorrisos e boa disposição. E sentir-me-ei feliz, no dia 26, quando, ainda empanturrada dos dois dias anteriores, sem poder ver doces à frente, me sentar no meu duro e querido sofá, respirar fundo e começar a ler o excelente livro que recebi.
Mas, apesar de acabar por ficar para segundo ou terceiro plano, no meio de tanta euforia, há algo na quadra natalícia que merece destaque. E que verdadeiramente me emociona e entusiasma. A solidariedade. O dar aos outros. O verdadeiro espírito natalício, aquilo que todas as mensagens de Natal têm implícito. A lembrança de que vivemos em sociedade e de que podemos fazer sempre um pouco mais por quem realmente precisa da nossa ajuda, do nosso tempo, da nossa atenção ou simplesmente da nossa palavra amiga ou, até mesmo, do nosso silêncio cúmplice. Por isso, este mês, escolhi saber o que se faz na cidade de Montemor-o-Novo no que respeita à solidariedade social, na ajuda a quem mais precisa, principalmente nesta fase que a economia portuguesa atravessa. Não fiz uma pesquisa exaustiva, confesso. Mas creio que vos deixo aqui bons exemplos.
Nos três primeiros sábados de Dezembro, 4, 11 e 18, o Agrupamento de Escuteiros faz a recolha de géneros alimentícios. Para quem queira contribuir, basta passar pela sede dos escuteiros, na Carreira de São Francisco, entre o Cemitério e a Igreja de São Francisco, e deixar os alimentos, entre as 15 e as 18horas. Claro que, devem ser produtos que não se deteriorem em pouco tempo e também não convém que sejam congelados, por não ser possível garantir a sua conservação. Todos os produtos recolhidos serão depois entregues à Cáritas Paroquial e ao grupo da Sociedade de São Vicente Paulo, ou Vicentinos, como são mais conhecidos.
A Cáritas Paroquial e os Vicentinos desenvolvem as suas actividades na paróquia e em colaboração com os sacerdotes, encarregando-se da assistência aos mais pobres.
A Cáritas Paroquial de Montemor é o grupo local de actuação de proximidade, que está integrado na Cáritas Diocesana de Évora, a qual, por sua vez, faz parte da Cáritas em Portugal ou Rede Cáritas Portuguesa, constituída pelas vinte Cáritas diocesanas. Com a colaboração de profissionais e voluntários, a Cáritas é uma instituição oficial da Conferência Episcopal, para a promoção e dinamização da acção social da Igreja Católica, que visa a assistência e também a promoção, o desenvolvimento e a transformação social. Luta por uma sociedade mais justa, com a participação dos que são atingidos por qualquer forma de exclusão ou emergência, sem olhar a crenças, culturas, etnias ou origem.
Em Montemor, um assistente social, que vem da Diocese, faz o atendimento das pessoas que se dirigiram ao sacerdote em busca de ajuda económica, seja porque perderam o emprego, porque estão com muitas dificuldades em pagar as suas dívidas (rendas, contas da água, luz, gás) ou porque não têm possibilidades para comprar roupa ou comida. O sacerdote encaminha-os então para o assistente social da Cáritas, que faz o estudo de cada caso, tomando em consideração os rendimentos familiares, as despesas, e assim compreendendo as reais necessidades de quem pede auxílio. Mais do que prestar apoio imediato, doando alimentos ou outros bens ou mesmo ajudando no pagamento das contas em atraso, procuram-se soluções, para que o momento de maior dificuldade seja isso mesmo, um momento menos bom, mas passageiro. Como ensina a conhecida parábola, não lhe dês o peixe, ensina-os a pescar. É isso que a Cáritas Paroquial procura fazer, ainda que seja essencial a doação de bens materiais.
Os Vicentinos, por seu turno, agem com o mesmo propósito, mas de uma maneira diferente. A Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), também conhecida por Conferências de São Vicente de Paulo ou Conferências Vicentinas, é um movimento católico de leigos que se dedica, sob o influxo da justiça e da caridade, à realização de iniciativas destinadas a aliviar o sofrimento do próximo, em particular dos social e economicamente mais desfavorecidos, mediante o trabalho coordenado de seus membros. A ajuda ao próximo (mais desfavorecido) pode passar pela oferta de roupa, livros, medicamentos, ajuda na procura de empregos e internamentos, visitas a lares, hospitais, cadeias, ou à fundação das chamadas «obras especiais» (obras de acção especializada e individualizada, lares de 3ª idade, centros de dia, casas de trabalho, salas de estudo, cantinas, lares para jovens, creches, infantários, jardins de infância, colónias de férias, etc.). A acção vicentina procura ser a resposta oportuna para cada situação de sofrimento ou pobreza que se detecta - resposta mais ou menos imediata, ou de simples encaminhamento das situações mais difíceis para as vias possíveis de resolução, inquietando consciências indiferentes, apesar de responsáveis, mas com possibilidade de resposta às situações de pobreza e sofrimento. A organização foi fundada em Paris a 23 de Abril de 1833, por um grupo de sete jovens universitários liderados por Frédéric Antoine Ozanam (1813-1853), estudante de Direito na Universidade de Sorbonne, um jovem, na época com apenas 20 anos de idade. A organização adoptou São Vicente de Paulo (1581-1660) como patrono, inspirando-se no pensamento e na obra daquele santo, conhecido como o Pai da Caridade pela sua dedicação ao serviço dos pobres e dos infelizes. O lema da organização assenta na frase de São Vicente de Paulo: “A caridade é inventiva até ao infinito”.
Em Montemor, os Vicentinos apoiam cerca de 70 famílias. São eles que, por conhecimento próprio, porque são atentos e preocupados, vão sabendo de casos de pessoas com dificuldades e procuram ajudar. Os Vicentinos, montemorenses, voluntários, de todas as idades, têm as suas reuniões próprias e programam e coordenam as suas acções. Acabam por ser muito próximos das pessoas a quem auxiliam, conhecem as suas dificuldades, fazem visitas, estão lá para ouvir e também para aconselhar, tentando que o auxílio não se torne uma dependência, mas seja sim um incentivo, para que se consigam superar as dificuldades.
É importante notar que cada caso é um caso e que deve ser analisado cuidadosamente, sendo esta a filosofia que tanto a Cáritas como os Vicentinos partilham. De nada vale ajudar cegamente, exactamente porque isso pode significar ajudar quem não precisa e deixar de prestar apoio a quem realmente está em dificuldades.
Há várias formas de ajudar estas organizações, que apoiam os mais necessitados agora e todo o ano, sem excepção. As acções de apoio social que desenvolvem são possíveis graças à boa vontade das pessoas, aos fundos da paróquia e da diocese, ao Banco Alimentar Contra a Fome e às contribuições dos próprios voluntários. São necessários alimentos e roupas e também dinheiro, que, sendo entregue na paróquia, é distribuído equitativamente pela Cáritas e pelos Vicentinos. Para os mais corajosos, com verdadeira disponibilidade, física e moral, que partilhem os mesmos valores que os Vicentinos, podem juntar-se ao grupo e arregaçar as mangas. Embora estejamos no Natal, os brinquedos não são o que mais importa. Afinal, brinquedos há muitos e perduram, para além de que as crianças gostam deles novos e de os escolher, e não velhos e usados, sem mencionar que de nada vale um brinquedo se não houver comida no dia de Natal.
A Santa Casa da Misericórdia, ou Irmandade da Santa Cada da Misericórdia de Montemor-o-Novo, já com 500 anos de história, e à qual terei que dedicar esta página de jornal numa próxima oportunidade, tem também um papel fundamental no apoio social no concelho de Montemor. Para além dos dois lares de idosos, em Montemor e nos Foros de Vale de Figueira, o Centro Dia, o Apoio Domiciliário, o Centro de Jovens ou ATL, a Farmácia e o Posto de Enfermagem, merecem especial destaque, neste momento, o gabinete de atendimento e apoio social “Família e Comunidade” e a Lojinha Social.
O gabinete de atendimento e apoio social “Família e Comunidade”, a funcionar no Lar de Nossa Senhora da Visitação, conta com três profissionais, uma psicóloga, uma assistente social e um orientador familiar. Foi a Segurança Social que propôs à Santa Casa da Misericórdia que avançasse com este projecto e hoje o Estado comparticipa, em parte, nas despesas, mas é a Santa Casa da Misericórdia que tem que fazer um esforço financeiro, agora mais que nunca, para conseguir manter esta valência. As pessoas que se dirigem ao gabinete à procura de apoio – que já são muitas e teme-se que cada vez sejam mais – encontram-se em situações financeiras complicadas, indo à procura de auxílio imediato, tantas vezes financeiro. Os casos são, por isso, analisados pelos profissionais que, para além de perceberem as reais e mais urgentes necessidades das famílias, procuram orientar, dando conselhos e buscando soluções. Para além das comparticipações financeiras do Estado, dos fundos da própria Santa Casa da Misericórdia e do Banco Alimentar Contra a Fome, também aqui, o apoio social prestado depende da boa vontade de todos. Os alimentos são sempre bem vindos e os donativos financeiros também, bastando dirigir-se à tesouraria da Santa Casa da Misericórdia – e estará a apoiar todas as acções da Santa Casa.
Em estreita ligação com o gabinete “Família e Comunidade”, funciona a Lojinha Social, que existe desde 2004, na Rua Teófilo Braga. Neste espaço as famílias carenciadas têm hipótese de assegurar o bem-estar dos seus membros, obtendo vestuário, mobílias, loiças e outros utensílios domésticos. Dentro do horário de funcionamento da Lojinha, que importa consultar, o atendimento é prestado por uma funcionária que, além disso, cuida, limpa e arruma os donativos. As pessoas mais carenciadas, depois de irem ao gabinete “Família e Comunidade”, onde se confirmam as suas necessidades e se faz a “encomenda” dos produtos que mais precisam, vão até à Lojinha buscá-los. Todos estão convidados a colaborar e o apelo tem sido acolhido, porque particulares e comerciantes têm feito bons donativos. Há que continuar!
Não vale a pena estender-me em explicações, apelos ou dramatismos sobre a situação difícil que se vive em Portugal e que ainda se aguarda. Todos temos direito à nossa opinião, à nossa tristeza ou revolta, ou até mesmo à nossa indiferença, porque, sejamos francos, a crise está a afectar muitos, mas não todos, pelo menos de forma preocupante. Que se fale menos e faça mais. Agora, porque é Natal. E sempre, porque somos humanos e precisamos uns dos outros, para tudo. E se dúvidas há sobre se a ajuda chega a quem precisa, que se vá ver, perguntar, fazer também. Porque até pode ser o nosso vizinho a precisar. Este Natal, recupere o espírito natalício e seja solidário.
A todos um santo Natal. E Bom Ano Novo – que, com as dificuldades, aprendamos a ser menos “Chicos espertos” e mais responsáveis.
Catarina Pinto Xavier











