Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Montemorenses Solidários

Tanto fiz, tanto corri, tanto andei de um lado para o outro, trabalhei, estive de férias, li, sorri, gritei, andei e imaginei, que, quando dei por mim, já estava em Dezembro outra vez. Mais um ano? Bolas!? Assim nem dou pelos “vintes”… Ou será que, bem vistas as coisas, os estou a aproveitar ao máximo, a sugar casa sopro de vida? Bom, seja lá o que for que eu ando a fazer, que – com todo o respeito – não é da vossa conta, até porque nisso não estarão de todo interessados, “the point is” (já repararam que agora muitas pessoas, principalmente jovens, têm a mania de, numa conversa em língua portuguesa, utilizarem expressões em inglês? Ele há modas… como aquele “tipo”, de quem tanto se falava…) Prosseguindo, o que pretendo frisar é que é Dezembro. E o que tem Dezembro? Para mim, frio e o fim do ano. Para o mundo inteiro, o Natal.
Não vou mentir. Não fico muito entusiasmada com o Natal. E isto para usar um eufemismo. Todo o alegado “espírito natalício”, as luzes, os doces, as compras, os enfeites, as frases feitas, as árvores de Natal, os pais Natais, os programas tipo “Natal dos Hospitais”, as canções, as “Boas Festas”, o bolo rei (bahh, detesto frutas cristalizadas!), o marketing, as mascotes das cadeias de supermercados a aparecer a toda a hora na rádio e na televisão, … Enfim, uma lista infindável de coisas que se repetem todos os anos, sem nada de original e tendencialmente cada vez mais maçadoras, que eu dispensaria de bom grado. De muito bom grado mesmo. Mas é inevitável. Ele está por todo o lado, é lembrado a toda a hora e nos dias 24 e 25 de Dezembro vou ter mesmo que o enfrentar, com sorrisos e boa disposição. E sentir-me-ei feliz, no dia 26, quando, ainda empanturrada dos dois dias anteriores, sem poder ver doces à frente, me sentar no meu duro e querido sofá, respirar fundo e começar a ler o excelente livro que recebi.
Mas, apesar de acabar por ficar para segundo ou terceiro plano, no meio de tanta euforia, há algo na quadra natalícia que merece destaque. E que verdadeiramente me emociona e entusiasma. A solidariedade. O dar aos outros. O verdadeiro espírito natalício, aquilo que todas as mensagens de Natal têm implícito. A lembrança de que vivemos em sociedade e de que podemos fazer sempre um pouco mais por quem realmente precisa da nossa ajuda, do nosso tempo, da nossa atenção ou simplesmente da nossa palavra amiga ou, até mesmo, do nosso silêncio cúmplice. Por isso, este mês, escolhi saber o que se faz na cidade de Montemor-o-Novo no que respeita à solidariedade social, na ajuda a quem mais precisa, principalmente nesta fase que a economia portuguesa atravessa. Não fiz uma pesquisa exaustiva, confesso. Mas creio que vos deixo aqui bons exemplos.
Nos três primeiros sábados de Dezembro, 4, 11 e 18, o Agrupamento de Escuteiros faz a recolha de géneros alimentícios. Para quem queira contribuir, basta passar pela sede dos escuteiros, na Carreira de São Francisco, entre o Cemitério e a Igreja de São Francisco, e deixar os alimentos, entre as 15 e as 18horas. Claro que, devem ser produtos que não se deteriorem em pouco tempo e também não convém que sejam congelados, por não ser possível garantir a sua conservação. Todos os produtos recolhidos serão depois entregues à Cáritas Paroquial e ao grupo da Sociedade de São Vicente Paulo, ou Vicentinos, como são mais conhecidos.
A Cáritas Paroquial e os Vicentinos desenvolvem as suas actividades na paróquia e em colaboração com os sacerdotes, encarregando-se da assistência aos mais pobres.
A Cáritas Paroquial de Montemor é o grupo local de actuação de proximidade, que está integrado na Cáritas Diocesana de Évora, a qual, por sua vez, faz parte da Cáritas em Portugal ou Rede Cáritas Portuguesa, constituída pelas vinte Cáritas diocesanas. Com a colaboração de profissionais e voluntários, a Cáritas é uma instituição oficial da Conferência Episcopal, para a promoção e dinamização da acção social da Igreja Católica, que visa a assistência e também a promoção, o desenvolvimento e a transformação social. Luta por uma sociedade mais justa, com a participação dos que são atingidos por qualquer forma de exclusão ou emergência, sem olhar a crenças, culturas, etnias ou origem.

Em Montemor, um assistente social, que vem da Diocese, faz o atendimento das pessoas que se dirigiram ao sacerdote em busca de ajuda económica, seja porque perderam o emprego, porque estão com muitas dificuldades em pagar as suas dívidas (rendas, contas da água, luz, gás) ou porque não têm possibilidades para comprar roupa ou comida. O sacerdote encaminha-os então para o assistente social da Cáritas, que faz o estudo de cada caso, tomando em consideração os rendimentos familiares, as despesas, e assim compreendendo as reais necessidades de quem pede auxílio. Mais do que prestar apoio imediato, doando alimentos ou outros bens ou mesmo ajudando no pagamento das contas em atraso, procuram-se soluções, para que o momento de maior dificuldade seja isso mesmo, um momento menos bom, mas passageiro. Como ensina a conhecida parábola, não lhe dês o peixe, ensina-os a pescar. É isso que a Cáritas Paroquial procura fazer, ainda que seja essencial a doação de bens materiais.

Os Vicentinos, por seu turno, agem com o mesmo propósito, mas de uma maneira diferente. A Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), também conhecida por Conferências de São Vicente de Paulo ou Conferências Vicentinas, é um movimento católico de leigos que se dedica, sob o influxo da justiça e da caridade, à realização de iniciativas destinadas a aliviar o sofrimento do próximo, em particular dos social e economicamente mais desfavorecidos, mediante o trabalho coordenado de seus membros. A ajuda ao próximo (mais desfavorecido) pode passar pela oferta de roupa, livros, medicamentos, ajuda na procura de empregos e internamentos, visitas a lares, hospitais, cadeias, ou à fundação das chamadas «obras especiais» (obras de acção especializada e individualizada, lares de 3ª idade, centros de dia, casas de trabalho, salas de estudo, cantinas, lares para jovens, creches, infantários, jardins de infância, colónias de férias, etc.). A acção vicentina procura ser a resposta oportuna para cada situação de sofrimento ou pobreza que se detecta - resposta mais ou menos imediata, ou de simples encaminhamento das situações mais difíceis para as vias possíveis de resolução, inquietando consciências indiferentes, apesar de responsáveis, mas com possibilidade de resposta às situações de pobreza e sofrimento. A organização foi fundada em Paris a 23 de Abril de 1833, por um grupo de sete jovens universitários liderados por Frédéric Antoine Ozanam (1813-1853), estudante de Direito na Universidade de Sorbonne, um jovem, na época com apenas 20 anos de idade. A organização adoptou São Vicente de Paulo (1581-1660) como patrono, inspirando-se no pensamento e na obra daquele santo, conhecido como o Pai da Caridade pela sua dedicação ao serviço dos pobres e dos infelizes. O lema da organização assenta na frase de São Vicente de Paulo: “A caridade é inventiva até ao infinito”.
Em Montemor, os Vicentinos apoiam cerca de 70 famílias. São eles que, por conhecimento próprio, porque são atentos e preocupados, vão sabendo de casos de pessoas com dificuldades e procuram ajudar. Os Vicentinos, montemorenses, voluntários, de todas as idades, têm as suas reuniões próprias e programam e coordenam as suas acções. Acabam por ser muito próximos das pessoas a quem auxiliam, conhecem as suas dificuldades, fazem visitas, estão lá para ouvir e também para aconselhar, tentando que o auxílio não se torne uma dependência, mas seja sim um incentivo, para que se consigam superar as dificuldades.
É importante notar que cada caso é um caso e que deve ser analisado cuidadosamente, sendo esta a filosofia que tanto a Cáritas como os Vicentinos partilham. De nada vale ajudar cegamente, exactamente porque isso pode significar ajudar quem não precisa e deixar de prestar apoio a quem realmente está em dificuldades.
Há várias formas de ajudar estas organizações, que apoiam os mais necessitados agora e todo o ano, sem excepção. As acções de apoio social que desenvolvem são possíveis graças à boa vontade das pessoas, aos fundos da paróquia e da diocese, ao Banco Alimentar Contra a Fome e às contribuições dos próprios voluntários. São necessários alimentos e roupas e também dinheiro, que, sendo entregue na paróquia, é distribuído equitativamente pela Cáritas e pelos Vicentinos. Para os mais corajosos, com verdadeira disponibilidade, física e moral, que partilhem os mesmos valores que os Vicentinos, podem juntar-se ao grupo e arregaçar as mangas. Embora estejamos no Natal, os brinquedos não são o que mais importa. Afinal, brinquedos há muitos e perduram, para além de que as crianças gostam deles novos e de os escolher, e não velhos e usados, sem mencionar que de nada vale um brinquedo se não houver comida no dia de Natal.
A Santa Casa da Misericórdia, ou Irmandade da Santa Cada da Misericórdia de Montemor-o-Novo, já com 500 anos de história, e à qual terei que dedicar esta página de jornal numa próxima oportunidade, tem também um papel fundamental no apoio social no concelho de Montemor. Para além dos dois lares de idosos, em Montemor e nos Foros de Vale de Figueira, o Centro Dia, o Apoio Domiciliário, o Centro de Jovens ou ATL, a Farmácia e o Posto de Enfermagem, merecem especial destaque, neste momento, o gabinete de atendimento e apoio social “Família e Comunidade” e a Lojinha Social.

O gabinete de atendimento e apoio social “Família e Comunidade”, a funcionar no Lar de Nossa Senhora da Visitação, conta com três profissionais, uma psicóloga, uma assistente social e um orientador familiar. Foi a Segurança Social que propôs à Santa Casa da Misericórdia que avançasse com este projecto e hoje o Estado comparticipa, em parte, nas despesas, mas é a Santa Casa da Misericórdia que tem que fazer um esforço financeiro, agora mais que nunca, para conseguir manter esta valência. As pessoas que se dirigem ao gabinete à procura de apoio – que já são muitas e teme-se que cada vez sejam mais – encontram-se em situações financeiras complicadas, indo à procura de auxílio imediato, tantas vezes financeiro. Os casos são, por isso, analisados pelos profissionais que, para além de perceberem as reais e mais urgentes necessidades das famílias, procuram orientar, dando conselhos e buscando soluções. Para além das comparticipações financeiras do Estado, dos fundos da própria Santa Casa da Misericórdia e do Banco Alimentar Contra a Fome, também aqui, o apoio social prestado depende da boa vontade de todos. Os alimentos são sempre bem vindos e os donativos financeiros também, bastando dirigir-se à tesouraria da Santa Casa da Misericórdia – e estará a apoiar todas as acções da Santa Casa.

Em estreita ligação com o gabinete “Família e Comunidade”, funciona a Lojinha Social, que existe desde 2004, na Rua Teófilo Braga. Neste espaço as famílias carenciadas têm hipótese de assegurar o bem-estar dos seus membros, obtendo vestuário, mobílias, loiças e outros utensílios domésticos. Dentro do horário de funcionamento da Lojinha, que importa consultar, o atendimento é prestado por uma funcionária que, além disso, cuida, limpa e arruma os donativos. As pessoas mais carenciadas, depois de irem ao gabinete “Família e Comunidade”, onde se confirmam as suas necessidades e se faz a “encomenda” dos produtos que mais precisam, vão até à Lojinha buscá-los. Todos estão convidados a colaborar e o apelo tem sido acolhido, porque particulares e comerciantes têm feito bons donativos. Há que continuar!

Não vale a pena estender-me em explicações, apelos ou dramatismos sobre a situação difícil que se vive em Portugal e que ainda se aguarda. Todos temos direito à nossa opinião, à nossa tristeza ou revolta, ou até mesmo à nossa indiferença, porque, sejamos francos, a crise está a afectar muitos, mas não todos, pelo menos de forma preocupante. Que se fale menos e faça mais. Agora, porque é Natal. E sempre, porque somos humanos e precisamos uns dos outros, para tudo. E se dúvidas há sobre se a ajuda chega a quem precisa, que se vá ver, perguntar, fazer também. Porque até pode ser o nosso vizinho a precisar. Este Natal, recupere o espírito natalício e seja solidário.

A todos um santo Natal. E Bom Ano Novo – que, com as dificuldades, aprendamos a ser menos “Chicos espertos” e mais responsáveis.

Dezembro de 2010
Catarina Pinto Xavier


P.S. - Publico este texto no blog um ano depois de o ter escrito - hoje é dia 8/12/2011 e parece que o acabei de escrever... Com o Natal vêm sempre as mesmas coisas e a economia continua em maus lençóis, se evoluiu foi para pior. Bom Dezembro a todos!

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

Projecto Ruínas



Nada como estar atento à agenda cultural e desportiva do concelho de Montemor. E não falo apenas daquela que é publicada pela Câmara Municipal, que Montemor é terra fértil para actividades e eventos, da mais variada espécie, e cruzamo-nos com eles em qualquer esquina. Infelizmente, por entre tanta oferta, é impossível estar em todas. Mesmo assim, vou conseguindo não perder algumas, e assim vou juntando o lazer à cultura e ao conhecimento.
Desta vez, assim que soube da estreia da peça de teatro “Aparato”, a 12.ª criação do Projecto Ruínas, juntei o útil ao agradável e propus logo uma reportagem. Como sempre, fui muito bem recebida, e entre uma agradável conversa depois de um ensaio geral e a presença numa das apresentações daquele espectáculo, fiquei a saber o que é, o que faz e como faz o Projecto Ruínas.
O Projecto Ruínas tem vindo a desenvolver, ao longo dos últimos 10 anos, as suas criações teatrais na cidade de Montemor-o-Novo. Existente desde 2001, podemos falar de um grupo de teatro, não pretendendo com isto definir o que fazem, mas apenas marcar um ponto de partida. Segundo dizem, aprofundam as temáticas centradas no ser humano – falível, moralmente corrupto, emocional, sarcástico e verdadeiro.
Pode dizer-se que tudo começou no ano de 2000, aquando da colaboração com as Oficinas do Convento, no âmbito de uma conferência organizada por esta associação. Nessa altura, foi apresentado um pequeno espectáculo no Convento de S. Francisco, em jeito de brincadeira, que teve boa aceitação. A partir daí, ainda que de modo informal, ao sabor das oportunidades, continuaram a trabalhar em conjunto. De princípio, apresentavam espectáculos ao estilo dos Bufões (se assim posso dizer), forma de teatro de origem francesa que remonta à idade Média. Chamavam-se bufões às pessoas que, andando em bandos de terra em terra, faziam rir os outros, aproveitando os seus defeitos, fazendo sátira também. Normalmente, faziam parte desses grupos pessoas excluídas, por terem problemas físicos, por serem anões ou corcundas.
De início, como dizia, o trabalho do grupo seguia o “estilo” dos Bufões, e tinha a influência da escola de Jacques Lecoq, que usa técnicas associadas ao físico, ao movimento e expressão corporal, e que, através da utilização da máscara, dá primazia à gestualidade corporal sobre a facial ou sobre a expressão verbal. Nesta vertente, o Projecto Ruínas participou num dos Encontros Theatron, em 2002.
Em 2003, o pequeno grupo que tinha levado a bom porto os projectos que havia empreendido, constituído por Francisco Campos, Sara Graça, Andreia Rocha e Miguel Rocha, decidiu formalizar o projecto transdisciplinar teatral que é o “Projecto Ruínas”, como dizem, constituindo a associação sem fins lucrativos com o mesmo nome. Como actividades principais a associação dedica-se às artes teatrais, nas suas mais variadas vertentes, e à criação de espectáculos. O nome “Projecto Ruínas” tem a sua origem no objectivo, traçado inicialmente, de criar espectáculos em ruínas, relacionando, assim, o seu trabalho ao património arquitectónico. Esse objectivo foi concretizado com a apresentação de espectáculos na Igreja do Convento de S. Francisco, no Convento da Saudação, nos antigos celeiros da EPAC e no Rádio-Cine.
O Projecto Ruínas cria os seus próprios espectáculos, criação essa que se estende a todos os aspectos, incluindo o texto. Explicam que “A singularidade da proposta artística baseia-se na construção de espectáculos através do método “devising” e na necessidade de dar uma oportunidade à ficção no teatro. Os textos originais, criados a partir de improvisações, baseiam-se num olhar desassombrado sobre o mundo, construindo ficções que espelhem a contemporaneidade, para depois as desconstruir sobre o olhar do público. A humanidade das personagens e a sua colocação em situações de crise de identidade, expostas ao ridículo, ao vazio e à informalidade, seduzem o espectador para o universo ficcional e para uma estranha identificação. Interessa-nos o silêncio e a sua tensão com a palavra, o indizível e a criação de atmosferas que joguem no patamar das percepções e da participação intuitiva do público. Espectáculos no fio da navalha, sem tom ou toada, povoados de vida e irrepetíveis.”
O Projecto Ruínas apresenta duas produções por ano. Este ano, as peças de teatro “Molusco” e, agora, “Aparato”. Cada produção exige, normalmente, três meses de trabalho mais intensivo. A forma como trabalham levam-nos a dizer que fazem as coisas ao contrário. A criação das personagens, o improviso, as ideias e, por fim, o texto final que será apresentado. Não é a cronologia das acções que é diferente, mas a própria forma de trabalhar, já que não se parte de um texto já elaborado, mas, ao invés, o objectivo é a criação desse mesmo texto. Há maior liberdade, mas com certeza maior hesitação e exigência. O importante, sublinham, é não ser aborrecido, enfadonho (“não pode dar seca”). A peça tem que ser minimamente forte, tem que surpreender e divertir, porque só assim se prende a atenção do espectador. Por fim, uma pitada de mistério.
O currículo desta associação conta já com inúmeras criações teatrais: Sátira em Ruínas, (Igreja de S. Francisco, 2001), Gueto (Igreja de S. Francisco, 2002), Ilustres Horas (Convento da Saudação, 2003), Império Contra-Ataca (antigos Celeiros da EPAC 2004 e Festival Noites da Nora, em Serpa), Comichão (Rádio-Cine, Montemor-o-Novo; Casa dos Dias da Água, Lisboa, 2005), Hans, O Cavalo Inteligente (Rádio-Cine em Montemor-o-Novo em 2006 e Teatro Taborda, 2007), O Vizinho (Cine-teatro Curvo Semedo, Montemor-o-Novo; Hospital Miguel Bombarda, Lisboa, 2007), Voluntário 22 (Cine-teatro Curvo Semedo, Montemor-o-Novo; Cine-teatro de Serpa; Espaço da Corredoura, Tavira, 2007), Shadow Play (Cine-teatro Curvo Semedo, Montemor-o-Novo; Espaço da Corredoura, Tavira; Antiga Lota de Portimão, 2008; Teatro da Comuna, Lisboa, 2009; Teatro das Beiras, Covilhã; Cine-Teatro de Serpa; Centro de Artes e Espectáculos, Portalegre), Contratempos (Cine-teatro Curvo Semedo, Montemor-o-Novo; Espaço da Corredoura, Tavira; Cine-teatro de Serpa; Teatro da Comuna, Lisboa, 2009), Molusco (Cine-teatro Curvo Semedo, Montemor-o-Novo; Auditório Municipal de Penela; Espaço da Corredoura, Tavira; Teatro das Beiras, Covilhã 2010) e Aparato (Cine-teatro Curvo Semedo, Montemor-o-Novo, nos passados dias 11, 12, 13 e 14 de Novembro e em 20 e 21 de Novembro no Espaço da Corredoura, Tavira).
Vindos de Lisboa, o Projecto Ruínas e os seus protagonistas, radicaram-se em Montemor-o-Novo, atraídos pelas oportunidades culturais aqui criadas e a lufada de ar fresco e liberdade que representa a província. Hoje, colaboram com diversas entidades e associações, como o Espaço do Tempo, o Centro Juvenil, a Escola Secundária, a Cercimor. Organizam workshops, na Cercimor dão aulas de expressão dramática, na escola realizam o “Teatro forúm”, no Centro Juvenil realizaram uma oficina de teatro para o 1.º ciclo – apenas para dar alguns exemplos. Fazem “intercâmbios” com outros grupos de teatro nacionais, acolhendo os seus trabalhos e indo também apresentar os seus espectáculos às terras natal desses grupos.
A associação beneficia dos apoios da autarquia e dos agentes culturais locais. Em 2009, o Projecto Ruínas passou a ser subsidiado, enquanto estrutura, pelo Ministério da Cultura, no programa de Apoios Directos 2009-2012.
Não têm uma sede, um espaço próprio para desenvolver o seu trabalho. Também não existe uma equipa permanente, porque não é possível garantir a sua continuidade, do ponto de vista financeiro. A imprevisibilidade e a incerteza que a actividade da associação acarreta, como qualquer actividade artística em Portugal, impedem o Projecto Ruínas de pensar no futuro. Mas se isso é o pior, o reverso da moeda apresenta aspectos positivos, pois são obrigados a viver o presente com maior intensidade, a evitar a rotina. Porque o melhor é fazer o que se gosta, poder criar, ter liberdade para o fazer e, claro, a apresentação dos trabalhos finais ao público. Por isso, não percam as últimas em http://projectoruinas.blogspot.com/

Novembro / 2010
Catarina Pinto Xavier

Nota: Fotografias de Nuno Patinho, do espectáculo “Aparato”. Texto e Encenação: Francisco Campos. Interpretação: Ana Mota Ferreira, Joana Bárcia, João Didelet, Margarida Bento e Francisco Campos. Espaço Cénico: Sara M. Graça Figurinos: Andreia Rocha. Desenho Luz: Nuno Patinho Cartaz: Miguel Rocha Produção: Susana Nunes.

Terça-feira, 13 de Setembro de 2011

A CIRANDA

Hoje experimentei algo que já não fazia há muito tempo. Levantar-me cedo num sábado. O friozinho matinal do Outono já obriga a um casaco, mas o ar fresco da manhã é revigorante, principalmente se o sol estiver à espreita, como esta manhã. Mas mais que acordar cedo, o dia começou de maneira diferente porque me levantei de propósito para ir ao mercado. Sim, para ir ao mercado municipal. Não fui comprar hortaliça (embora já me tenha arrependido de não o ter feito), mas fui ver artesanato. Mais do que ver, fui apreciar e ouvir quem o faz. É que – e aqui fica a informação para os mais distraídos – a Ciranda tem uma loja no mercado, do lado virado para o quartel dos bombeiros.

“A Ciranda” – Associação dos Artesãos e Artistas Plásticos da Região de Montemor-o-Novo – é, como o próprio nome indica, uma associação de artesãos e artísticas plásticos, constituída a 5 de Março de 1997, com sede em Montemor-o-Novo, e tem como principais objectivos a promoção, a divulgação e a valorização do artesanato regional, nomeadamente, através da participação em feiras, exposições e colóquios.


Mas antes de vos falar sobre a associação, importa responder à questão “O que é o artesanato?”. Pergunta desnecessária para uma resposta sobejamente conhecida? Talvez. Creio que nunca é demais partilhar conhecimentos. E, se calhar, a palavra “artesanato” carrega em si vários pré-conceitos que devem ser desmistificados. Porque artesanato não é sinónimo de antigo, nem necessariamente de tradicional. Artesanato não é, também, antónimo de original ou de inovação. Artesanato não se define como a manufactura de objectos que se usavam noutros tempos e hoje não. O artesanato não é só decorativo, é também utilitário. E os artesãos não são necessariamente idosos. No dicionário, “artesanato” é definido como a manufactura de objectos com matéria-prima existente numa determinada região, produzidos por um ou mais artífices numa pequena oficina ou na própria habitação. Não importa, pois, tanto o produto final, mas antes a forma como é feito, à mão, trabalhando a matéria-prima através de determinadas técnicas, tendo como resultado final um produto que é único e irrepetível, porque não é produzido em série, mecanicamente. No fundo, e sem pretensões de vos dar uma definição única e universal, pode dizer-se que o artesanato é essencialmente o próprio trabalho manual, e, por isso, a própria produção de um artesão (de artesão + ato). Hoje em dia, contudo, não deixa de ser verdade que, com a mecanização da indústria, o artesão é identificado como aquele que produz objectos pertencentes à chamada cultura popular. A verdade, porém, é que a isso não se limita, porque se o artesão é aquele que faz objectos manualmente, sem a ajuda de máquinas, trabalhando directamente as matérias primas, então não só um tarro como uma peça de bijutaria podem ser peças de artesanato.


Em Montemor, falar d’“A Ciranda” é falar do artesanato que se faz por cá, de artesãos montemorenses e também de concelhos limítrofes, como Vendas Novas e Évora. A associação conta actualmente com cerca de trinta associados, todos artesãos, alguns profissionais, outros artesões nas horas vagas, o que não significa obrigatoriamente que sejam amadores, muito pelo contrário. Há associados que trabalham as matérias-primas há tantos anos quantos se lembram, contando, por isso, com muita experiência e sabedoria. E, ainda que a média de idades se situe acima dos quarenta anos, a verdade é que também há associados jovens.

Para se ser associado da Ciranda é necessário preencher um conjunto de requisitos. Em primeiro lugar, é preciso trazer uma amostra do seu trabalho. Depois, importa ter a sua situação regularizada junto da segurança social e das finanças. E isto por uma razão muito prática: por uma lado, porque o associado há-de querer vender os seus produtos e, por outro lado, porque é frequente haver inspecções nas feiras em que a associação participa, nomeadamente por parte da ASAE. Por último, há que pagar uma jóia de € 25,00 e, a partir daí, uma quota no valor de € 1,00 por mês. Como requisito implícito, é preciso ter vontade de participar nas actividades da Ciranda, de trabalhar em prol da associação.

Entre os associados, há quem trabalhe nas áreas da cestaria, da trapologia, pintura alentejana, outras técnicas de pintura em madeira, olaria, decoração de cerâmica, artes decorativas, trabalhos em pele, pintura em tecido, renda, entre outros. A casca de cebola, a camisa de milho e a cortiça são apenas algumas das matérias-primas trabalhadas.

Actualmente, as actividades da Ciranda incidem sobre três áreas principais: a formação, a participação em feiras e a loja, no mercado municipal.

A Ciranda promove cursos de formação sobre técnicas que são utilizadas na produção de artesanato. Neste ano de 2010, a associação promoveu um curso de costura e outro sobre técnicas de tingimento. Estes cursos estavam abertos a toda a gente mas, como condição de participação, exigia-se a inscrição na associação. E isto porque não se tratam de meros workshops, mas de cursos de formação profissional, à partida direccionados a quem já tem experiência em trabalhos manuais. A abertura deste tipo de cursos obriga à apresentação de candidatura da Ciranda junto do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Para o próximo ano já se pensa na abertura de dois outros cursos, mas os projectos ainda estão em cima da mesa. Numa perspectiva mais informal, a associação também promove workshops, normalmente no âmbito das feiras em que participa.

No seu curriculum, a Ciranda conta com participações em inúmeras feiras e exposições, das quais podemos destacar a FIA – Feira Internacional de Artesanato (na FIL, em Lisboa), “O Tapete está na rua!”, em Arraiolos, e, claro, a presença assídua na Feira da Luz, em Montemor, que para a Ciranda é o evento anual mais importante. É habitual a participação da Ciranda nas festas populares das vilas e aldeias do Concelho. Também já por diversas vezes organizou pequenas feiras ou mostras de artesanato na cidade de Montemor, sempre com o apoio fundamental da Câmara Municipal. Os objectos que se levam para exposição são necessariamente dos associados que estão disponíveis para colaborar, ajudando na montagem do stand e ficando no stand por algumas horas. O principal objectivo é vender os produtos e, diz quem sabe, que quando o próprio artesão está presente e pode falar sobre as matérias-primas e as técnicas que utiliza, o seu produto vender-se-á mais facilmente. Quando possível, o trabalho ao vivo dos artesãos é um óptimo chamariz.


A loja, no mercado municipal, está aberta de terça-feira a sábado, na parte da manhã, ou pelo menos, tenta-se que assim seja. É que para a loja abrir é necessário que, pelo menos, um associado esteja disponível para lá estar, o que obriga a fazer um plano de turnos, tentado que a loja esteja aberta no horário definido e que todos quantos têm produtos à venda colaborem. A entrega à associação de dez por cento do valor ganho com as vendas dos seus produtos é condição para os associados que queiram participar na loja. Aí é possível encontrar uma variedade grande de produtos: cestos, tarros, malas, bijutaria, molduras, peças decorativas, talegos, caixinhas, porta-moedas, … apenas para dar o exemplo. Eu não resisti a trazer uma fisga. J

Através da Ciranda os artesãos unem esforços e conseguem, com menos gastos e burocracias, levar os seus produtos a um maior número de feiras e exposições, levando também a cultura alentejana e um bocadinho de Montemor. A Ciranda vive da colaboração de todos os associados e o dia a dia da associação está a cargo dos órgãos sociais, um grupo de pessoas dinâmico, voluntarioso e que aposta na divisão de tarefas. A associação tem a sua sede nos antigos celeiros da EPAC, na Rua Curvo Semedo, junto ao Estaleiro Municipal e ao LIDL, numa sala disponibilizada pela Autarquia, cujo apoio financeiro e logístico é fundamental.

Outubro de 2010

Catarina Pinto Xavier

Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

Produções Fícticias Ciborrenses

Podia ser um grupo de teatro. Podia ser apenas um grupo de amigos. Podia ser um grupo de conterrâneos que de vez em quando se juntam para trocar umas ideias e beber umas “jolas”. Podia ser uma tertúlia. Podia ser um grupo de jovens com interesses políticos. Podia ser um grupo organizado com o intuito de levar as notícias da terra a quem não está por perto. Podia ser uma coisa muito séria. Podia ser pura brincadeira. Podia ser um clube ou uma espécie de associação. Podia ser um grupo de críticos. Podia ser um grupo de pensadores. Podia ser a voz de quem se preocupa e quer melhor. Podia ser um meio de divulgação de ideias. Podia ser apenas um blog. Podia ser o início da contestação. Podia ser o fim da macacada.

Podia ser tudo isto e talvez não seja nada.

Desta vez pus-me a caminho da minha aldeia preferida. Como já numa outra vez tinha referido, o concelho de Montemor-o-Novo é grande e se há muitas histórias e muitos feitos pela cidade, muitos haverá nas aldeias que a circundam. Por isso fui até ao Ciborro. A minha aldeia preferida, aquela que é especial. E digo-o sem desprimor para as demais, que todas têm as suas gentes e virtudes. Mas todos temos direito à nossa preferência, a gostar mais de uma em particular. E eu gosto do Ciborro. Gosto da terra, das pessoas, das histórias e tradições, da união. É a aldeia da minha família materna (sim, que não se pode falar de ninguém que seja do Ciborro ao pé da minha mãe que ela vai logo dizer que é nosso(a) primo(a)... já desisti de tentar perceber quem não é!). É a aldeia das melhores férias de Verão da minha infância e adolescência! Pena não ir lá mais vezes, como ia dantes. Pena ainda não ter lá ido passar o Carnaval, como tantas vezes a Joaquina me aconselhou. Pena não ter lá ido às festas, que este ano foram mais cedo que o habitual e me trocaram as voltas.

Mas fui lá agora. Fui lá para saber quem eram e o que fazem os meninos que dão a cara às Produções Fictícias Ciborrenses, cujo blog, já tão popular como as comédias teatrais, ando a seguir, como não poderia deixar de ser.

Eles – sim, só eles, não há elas neste grupo, não por discriminação, mas por natureza, - chamam-lhe prontamente “um projecto inacabado”. Eu, que fui para saber o que era e entrei logo directa ao assunto com a pergunta “O que são as Produções Fictícias Ciborrenses?”, depois de os ouvir e partilhar da sua boa disposição, chamei-lhes “grupo de ciborrenses organizado na sua desorganização” e eles concordaram. Sim, pode ser isso. Mas também pode ser muito mais (ou muito menos). No fundo pode ser o que se quiser, sem compromissos assumidos, ao sabor da vontade e ao ritmo do bom humor. Mas não esquecendo: sempre sem compromisso.

Tudo começou em 2006 – embora haja discussão interna sobre o ano exacto da fundação do grupo, vamos assumir que foi mesmo há 4 anos atrás que as Produções Fictícias Ciborrenses tiveram início. O nome não surgiu logo, veio depois, muito na onda dos Gato Fedorento, mas sem plágios.

Surgiu nesse ano de 2006 a ideia de fazer um teatro de Carnaval. Há cerca de dez anos que não se fazia o tradicional teatro, o qual, durante décadas, foi apresentado pelo grupo de teatro do Ciborro, tão querido para os ciborrenses como o Rancho Folclórico. O então grupo de teatro ensaiava durante todo o ano para apresentar à população uma peça de teatro pela altura do Carnaval, por norma, peças de teatros de autores conceituados. Havia a preocupação de estudar as peças, criar as personagens, o guarda-roupa e os cenários. Em suma, pode dizer-se que a missão era levada muito a sério e agradava à população. Por qualquer motivo que agora não vem ao caso, o grupo desfez-se e a tradição do teatro de Carnaval adormeceu.



Adormeceu até ao dia em que, qual beijo do príncipe na bela adormecida, um grupo de famosos cavalheiros naturais do Ciborro, conhecidos pelas alcunhas/nomes artísticos de Pepe, Biléu, Da Bucha, Cajarana, Buchinha, Barruaça, Bita, Sarrafo, Perna, Chibinha, Cebolas, Barrancos Xixito, Paulinho e Manelito (sem que a ordem pela qual foram indicados tenha qualquer intencionalidade) deliberaram, democrática e sobriamente, e após muito sensatamente ponderarem, a bem da população do Ciborro e em nome das tradições da terra, ressuscitar a tradição do teatro de Carnaval, encarregando-se eles próprios de prepararem, ensaiarem e apresentarem uma peça de teatro nesse ano. (Bem, não terá sido exactamente desta forma e por esta ordem que tudo sucedeu, mas entrei no espírito dos “sketchs” e imaginei uma cena com um toque de heroísmo, quase como uma lenda.)


Avançando. A ideia foi concretizada e a estreia correu melhor do que o esperado. Sempre numa base de brincadeira, com muita improvisação e aldrabice à mistura, as Produções Fictícias Ciborrenses puseram a população a rir e iniciaram assim o caminho da fama – pelo menos no Ciborro, que afinal, é tudo o que interessa. Mais peças foram apresentadas, tanto no Carnaval como no espectáculo Prata da Casa, uma festa organizada no verão pelo Rancho Folclórico do Ciborro, e o resultado foi sempre o mesmo: a casa do povo do Ciborro cheia! Ai, perdão, agora é Casa de Cultura e Recreio do Ciborro (Bolas, e eles que me fizeram prometer que não escreveria Casa do Povo!).



O espírito é de bom humor. O princípio é saber brincar, até porque saber rir de nós próprios é uma virtude e é marca de personalidade. Como os próprios admitem, não se trata de verdadeiro teatro, nem têm a pretensão de ser os sucessores do antigo grupo de teatro que, como dizem, fazia as coisas a sério e bem e não assim. E este “assim” significa que o que fazem muitas vezes (se não todas) não é ensaiado com rigor ou pensado ao pormenor. Nasce das tertúlias que fazem no café, de um disparate que algum diz, do episódio que algum lembra, da ideia que algum atira para o ar, e que depois são desenvolvidas, mal ou bem, com o contributo de uns ou de outros, e, a final, até pode virar um “sketch” com piada. Tiram partido da comédia e fazem sátira, aproveitando para dizer umas quantas verdades a brincar. Afinal, é tudo ficção, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência e, como sabiamente diz o povo, a carapuça só serve a quem a enfia.
Entretanto, algures em 2007, salvo o erro, nasceu o Blog das PFC http://pfciborrenses.blogspot.com/ e tem sido através deste meio que, numas alturas mais que noutras, as Produções Fictícias Ciborrenses têm dado a conhecer as suas actividades e, principalmente, as notícias do Ciborro, sempre com uma pitada de brincadeira, claro está. Este ano, provavelmente, com um peso mais importante, já que não houve o teatro do Carnaval. Como se disse, nunca assumiram o compromisso, nem prometem que no próximo ano haja nova actuação. A ver vamos.


Voltando ao Blog. O Blog tem vídeos de alguns sketchs das produções Fictícias Ciborrenses, tem fotografias antigas, para a memória não morrer, e alguns dados relevantes sobre a aldeia (como trechos do livro Ciborro, uma aldeia diferente no Alentejo, da autoria da conterrânea Dra. Anastácia Salgado) tem sempre as últimas do que se passa no Ciborro e, na minha opinião, que acabou sendo corroborada pelos protagonistas desta reportagem, desempenha dois papéis muito importantes: por um lado, serve de elo de ligação com os ciborrenses emigrantes e, por outro, é um meio de divulgação dos eventos, actividades e preocupações da população do Ciborro. Tanto assim é que o Blog já serviu como meio de contestação do problema dos cortes de água no Ciborro, do mau estado da estrada e, há pouco tempo, foi meio de divulgação e cobertura do projecto “Limpar Portugal” que no Ciborro contou com cerca de 50 pessoas, entre miúdos e graúdos.


O grupo está para durar, seja como Produções Fictícias Ciborrenses ou não. E claro: nada de compromissos, que para isso já chega a vida real. Gostam do que fazem e concordam que vale a pena, seja pelo apoio demonstrado pelos ciborrenses e pela alegria que trazem, seja porque sentem que desta forma têm uma palavra a dizer sobre o estado da nação e sempre sobre o Ciborro, seja porque, acima de tudo, são amigos e se divertem. E, afinal, para que cá estamos?


O pior são as divergências e a falta de financiamento para as jantaradas. Deviam ser mais, porque é nessas alturas que toda a inspiração aparece. Também já houve alguns mal entendidos com pessoas que se sentiram gozadas em alguns sketchs, mas, dizem, são ossos do ofício e é pena que nem toda a gente tenha sentido de humor.
O melhor é o convívio e as gargalhadas, os momentos inesquecíveis. Quem diria que a filmagem de um sketch que envolvia duas personagens guardas republicanos ia virar um filme de apanhados por as pessoas acreditarem que se tratava mesmo de uma operação stop? Quem diria que num sketch em que se fazia referência ao famoso pianista António Rosado (natural do Ciborro!), o próprio estava mesmo presente e quase que subiu ao palco pensando que o chamavam!!??


Afinal, quem diria que este “projecto inacabado” ia dar frutos e entrar no livro de memórias do Ciborro? Quem diria...


Julho / 2010


Catarina Pinto Xavier

Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011

Escola de Ballet

Era sexta-feira e eu tentei a minha sorte.

Cheguei sem ser notada, naquela confusão barulhenta de quem se apressa e em que todos correm para estar prontos. É mesmo ali, aproveitando os sofás castanhos e polidos do tempo, virados de frente para a porta que dá acesso à parte superior do anfiteatro, ladeada por outras tantas portas humildes de camarins, castanhas numa parede creme como sempre a conheci, que, entre maiôs e sapatilhas, collants e fitas para o cabelo, as meninas se aprontam para a aula, ajudadas pela mãe, pelo pai ou pela avó e outras ainda trazidas pela educadora. Meninas, só meninas. Pelo menos a partir das cinco da tarde. O corajoso rapaz pertence à classe das 16 horas, chega-me pela cintura, é simpático e bem comportado e fica na fila da frente, muitas vezes fazendo par com a professora, dando exemplo às coleguinhas. Porque se dantes ainda se podia utilizar o plural de rapaz, hoje há mesmo só um, contrariamente ao que seria de imaginar. Pena pensar-se que o ballet é só para meninas, tal como ainda se pensa que outros desportos são só para rapazes. Mas não usemos mais a palavra professora, que – como todos sabem – a Amélia não gosta de ser chamada assim, o primeiro nome serve melhor e não há como confundir. Usei apenas para compor a cena.

Há passinhos de corrida e há risos de brincadeira, mas todas sabem que não são tolerados atrasos. Se antes as alunas eram mais caladas, menos mexidas, e, diga-se a verdade, muito mais disciplinas, agora é preciso pedir silêncio mais vezes, esperar que não falem todas ao mesmo tempo e que tenham paciência, que é preciso aprender primeiro a ouvir e a observar, antes de começar logo a falar ao desbarato, colocando uma dúvida que acabou de ser esclarecida. São gerações. E esta é diferente, é mais mexida, mais barulhenta, e traz telemóvel e phones nos ouvidos, mesmo que a idade não ultrapasse o número mais elevado do teclado. Nada de telemóveis, também sabem. Antes de entrar é preciso deixar as últimas novidades e problemas do dia a dia exactamente onde se deixou a mochila com a roupa que traziam vestida: nos sofás castanhos virados de frente para a porta que dá acesso à parte superior do anfiteatro. Porque fazer ballet clássico não é só mexer o corpo. Exige concentração, a cabeça tem que estar presente por completo, o coração tem que, pelo menos, bater por gosto e o corpo, esse, tem que se esforçar, às vezes mesmo até doer, porque nada nesta vida se faz sem esforço, muito menos aquela posição, com a perna, os braços, o tronco, o pé… tudo na perfeição por breves segundos, como se de uma pena soprada pelo vento se tratasse. Tudo exige esforço, tempo, dedicação. E se em pequeninas é ainda uma actividade extracurricular, uma actividade física, com o avanço da idade passa a ser um escape para a rotina, como que um mundo à parte, que implica a encarnação de personagens, a construção de uma coreografia, e, sobretudo, paixão… que é o que move quem, à parte de tudo e sem pretensões profissionais, continua a vir às terças e às sextas ensaiar no salão nobre do Cine-Teatro Curvo Semedo.


A Escola de Ballet da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo nasceu em 1979, depois da D. Noémia Vaz Velho ter conhecimento de que em Évora havia uma Escola de Ballet, resolvendo propor um projecto semelhante em Montemor, cujo objectivo principal era facultar à população a oportunidade de tomar contacto com uma arte considerada elitista. A vereadora da cultura, Eng.ª Conceição Macau, e o Presidente da Câmara, Sr. Pinto Ângelo, aderiram à ideia e a escola de ballet mantém-se em funcionamento até hoje, 31 anos depois, sob a orientação de Amélia Mendoza, antiga bailarina profissional e espanhola de nascimento, tal como denuncia o sotaque.

O objectivo da escola mantém-se e continua aberta a toda a população. Claro que, com o passar do tempo, o objectivo tem sido cumprido e sem dúvida que hoje o ballet não é uma arte desconhecida e apenas praticada por profissionais. Está perto de todos e todos sabem disso. Ao mesmo tempo, é indiscutível que a escola de ballet tem marcado a cultura montemorense e tem principalmente contribuído para a formação dos jovens nessa área.


Tal como no início, as aulas de ballet clássico acontecem no salão nobre do Cine-Teatro Curvo Semedo, por norma todas as terças e sextas-feiras, entre as 16 horas e as 21 horas, com classes diferentes de hora a hora, desde as mais pequeninas (e pequenino) com 4 e 5 anos, e por aí adiante, até às mais velhas, um grupo mais restrito, das que realmente cresceram na escola e continuam a dançar por paixão. Depois, em certas alturas, como esta agora antes do espectáculo de final de ano, que acontece já no próximo dia 3 de Julho, há ensaios também ao fim-de-semana. Todo o tempo é precioso, porque para além de todos os passos, é preciso também saber todos os tempos, conhecer a música, a história que vão contar, o significado dos gestos, e estar em sintonia com o resto da classe. Afinal, aos bailarinos é exigida grande capacidade de concentração, porque cada passo corresponde a um segundo, pelo que num minuto é preciso fixar 60 passos. Daí haver estudos que comprovam que os jovens que fazem ballet têm mais propensão a ser bons em matemática e noutras disciplinas que exigem concentração. Não é fácil, e elas sabem. E as mais velhas têm mesmo que ler sobre as obras e personagens que vão interpretar. Como este ano, que através do bailado vão prestar tributo às mulheres que abriram caminho a todas as mulheres de hoje, para fazer o que mais amam e terem voz activa na sociedade.

A disciplina sente-se, quer física quer intelectual. A moleza e a preguiça não têm aqui lugar e quem não se consegue adaptar, acaba por sair. O mais difícil é o início do ano. Para a Amélia e para as alunas. As alunas são muito irrequietas no início e é preciso muita paciência para conseguir ensinar alguma coisa, depois as coisas vão-se compondo, elas começam a ser mais disciplinadas e há menos confusão. Para elas é difícil habituarem-se aos gritos da Amélia, e de princípio sentem medo. Mas como a mestre é a primeira a repreender um erro tal como é a primeira a elogiar quando os passos são bem feitos, as bailarinas acabam por passar a ter respeito e sentem que o esforço é, de alguma forma, premiado: diz a Amélia e retrata o espelho.


Agora é a excitação total, a confusão total. Os passos, quem fica aonde, quem faz par com quem, as sapatilhas, os tutus, os adereços que caracterizam as personagens, enfim... Estão todas entusiasmadas com o espectáculo que se avizinha que, para todas, é o grande momento do ano. Foi para isso que ensaiaram: para dançar bem, ficar bonito, ouvirem os aplausos. Nesses dias, em que tudo parece faltar e estar fora do lugar e em que todas as peripécias acontecem (como não poderia deixar de ser), no fim do espectáculo, os nervos dão lugar à alegria e ao sentimento de realização. É muito bom, todas concordam. E à pergunta de como se faz para gerir tudo e resultar sempre bem, vem a resposta sincera: “Não sei, é um mistério...”, mas, direi eu, o mérito está todo lá.

Junho / 2010
Catarina Pinto Xavier

Terça-feira, 12 de Abril de 2011

Almansor Futebol Clube


O Almansor Futebol Clube nasceu a 23 de Março de 2004, data da sua constituição como associação, com o objectivo de fomentar a prática da actividade física na região. Porém, não é bem assim que a história começa...


Era uma vez uma grupo de amigos – já veteranos na prática desportiva – que se juntavam para jogar futebol de 11. Não falo de uma “peladinha” no jardim do bairro ou de um encontro semanal para desenferrujar os músculos. Não. Falo de “amadores-profissionais” que não queriam apenas dar uns chutos na bola mas entrar em competição. Por isso criaram uma equipa de futebol de 11, integrada no Centro de Judo de Montemor-o-Novo e, durante duas épocas, participaram no Campeonato Distrital do Inatel. Depois resolveram abrir as asas e voar por sua conta e risco. Foi então que decidiram criar um Clube Desportivo – o Almansor Futebol Clube –, que, embora principalmente vocacionado para a prática do futebol, podia albergar outras modalidades – daí a consagração de tal objectivo estatutário. De início, e com essa mesma equipa, faziam jogos particulares e participavam em torneios, sem descorar a imagem da equipa: o símbolo do novo clube, o equipamento, os galhardetes, as fotografias, nada foi deixado ao acaso.


Mas não fiquem espantados os leitores com o início desta história. É que todas as histórias são feitas de outras tantas estórias e episódios e, como diz o cantor, na vida, se existe linha, ela é curva. Por isso é verdade, sim senhor, que o Almansor Futebol Clube é hoje conhecido pelo futsal - modalidade de futebol que se pratica em recinto fechado sobre um piso de cimento ou madeira, também conhecido por futebol de salão, em que jogam 2 equipas, cada uma com 5 jogadores (1 guarda-redes e 4 jogadores de campo), com 2 partes de 20 minutos cada, desde que a bola esteja a rolar dentro de campo (caso contrário, pára-se o cronómetro) – todavia não foi por causa do futsal que nasceu, ainda que, hoje, os seus fundadores confessem que na altura já se pensava nesta modalidade.


O futsal apareceu no Almansor Futebol Clube há 4 épocas atrás, quando se constituiu uma equipa sénior masculina para entrar nas competições distritais desta modalidade. Desde então a importância do futsal foi crescendo e actualmente é impossível falar de futsal em Montemor sem se falar do Almansor – uma coisa leva à outra. E porquê? Bem, em primeiro lugar porque actualmente – depois do fim do Grupo Desportivo de Montemor (GDM) – este é o único clube que se dedica à prática da modalidade na cidade de Montemor-o-Novo. Em segundo lugar, porque a quase totalidade das actividades do clube se prendem com o futsal – digo quase, porque muito recentemente se deu início aos treinos de kick boxing, que conta já com 12 atletas! (Esperamos, pois, que também esta modalidade se desenvolva e tenha o sucesso pretendido!). E, em terceiro lugar, porque, apesar de muito novo, este clube tem vindo a fazer história no âmbito do futsal distrital (e tenta deixar o seu registo a nível nacional). E aqui não falamos apenas dos troféus já arrecadados em vários torneios, mas principalmente da prestação das suas equipas e atletas. Destaque-se a vitória dos Juniores esta época, que se consagraram Campeões Distritais e estão actualmente a disputar a Taça Nacional de Juniores, que os levará, já neste sábado – 22 de Maio – até S. Vicente do Paul, concelho de Santarém, para defrontarem o S. Vicentense, a contar para a 7.ª jornada da Taça Nacional.


Na qualidade de clube desportivo vocacionado para o futebol, o Almansor faz parte da Associação de Futebol de Évora e da Federação Portuguesa de Futebol. Só nesta época (2009/2010), que terá o seu término já no próximo dia 6 de Junho, o Almansor conta com cerca de 80 atletas para a prática do futsal, dos quais 60 são federados, divididos por quatro equipas: seniores masculinos, seniores femininos, juniores masculinos e juvenis masculinos. Este número de atletas deve-se, por um lado, ao desaparecimento do GDM, o que levou a que alguns antigos jogadores desse clube se juntassem agora ao Almansor, aliás, a equipa feminina formou-se no GDM. Por outro lado, não é irrelevante a recente expansão e divulgação da modalidade em Portugal, que tem vindo a somar mais adeptos e a despertar o interesse de mais jogadores, o que propicia, também, melhores competições. Não obstante, o clube está sempre aberto à vinda de novos jogadores que queiram integrar o plantel, até porque se está a pensar constituir mais duas equipas para a próxima época: iniciados e infantis. Assim, o clube não tem descurado na procura de mais atletas, o que se comprova pelos treinos de captação que têm sido organizados e que visam descobrir novos talentos para o futsal. E aqui importa destacar um objectivo muito claro do clube: ter atletas montemorenses. E é isso mesmo que se verifica, já que 98% dos atletas do Almansor são de Montemor. Importante é mostrar vontade de aprender e de jogar. A técnica vem depois e aprende-se. O talento, esse, talvez de descubra.Coordenar toda esta malta e pôr o clube a mexer exige um trabalho quase diário, que na verdade é um trabalho para além do trabalho, que se faz e exige tempo, concentração, atenção e dedicação depois da hora normal do trabalho profissional ou escolar – conforme as idades. Relativamente à prática desportiva propriamente dita, as equipas são orientadas pelos treinadores Pedro Pereira (seniores masculinos e femininos) – que esta época se despede do comando da equipa feminina –, Rui Simões (juniores) e Mário Alcaparra (juvenis). Os treinos decorrem todas as semanas no pavilhão gimnodesportivo da Escola C+S, ao final do dia, e os jogos são aos fins-de-semana, normalmente aos sábados para os rapazes e aos domingos para as raparigas. O trabalho de bastidores cabe, invariavelmente, ao membros da direcção que empenhadamente se entregam à árdua tarefa de tratar dos assuntos relacionados com as inscrições dos jogadores e técnicos, com os atestados médicos, seguros, recolha de patrocínios, transportes, calendário dos jogos e outro cem número de pormenores – tantas vezes invisíveis – mas essenciais à vida do clube.


Claro que, como é sabido, o Almansor – tal como os demais clubes desportivos montemorenses – subsiste graças à preciosa ajuda da Câmara Municipal e Juntas de Freguesias e aos patrocínios gentilmente atribuídos por cerca de vinte firmas montemorenses e, também, pela empresa Delta. É que – e importa destacar este aspecto – aos atletas, além do esforço e da dedicação, nada mais é pedido. O clube oferece os equipamentos (à excepção dos ténis, que são dos próprios jogadores), as inscrições, os seguros e suporta todas as demais despesas (por exemplo: aquisição de bolas, despesas com árbitros e serviços da GNR em alguns jogos).


Para além da participação nas competições oficiais e torneios para que é convidado, o Almansor organiza todos os anos o evento “24 horas de Futsal”, o qual vai já para a sua 7.ª edição. Este ano a data já está marcada: 2 e 3 de Julho, e espera-se que a afluência seja grande, pois basta ter vontade de jogar e fazer uma equipa para participar! Diferente, mas também organizado pelo Almansor, é o Torneio Quadrangular, que, realizando-se em Setembro, tem o objectivo de marcar a pré-época. Convidam-se, então, outras equipas que jogam em campeonatos diferentes, normalmente da 3.ª e 2.ª divisão, e testa-se a preparação física e a capacidade técnica dos jogadores do Almansor. Mesmo antes do início da época, que em regra começa no final de Outubro, faz-se a apresentação das equipas. Este ano, para o inicio da época 2010/2011, talvez haja uma surpresa relacionada com a equipa que o Almansor pensa convidar para o jogo de apresentação, mas mais não diremos...


Quando se pergunta pelo pior, dizem, sem rodeios, que o pior é o dinheiro ser um bem escasso. Por causa disso, tudo se complica e os dirigentes fazem mil acrobacias. O melhor é, sem dúvida, fazer aquilo que se gosta: desporto. E para isto não são necessárias mais explicações, apenas dizer que serve aqui perfeitamente a velha máxima: “quem corre por gosto não cansa”.


Em nome do clube, um agradecimento especial aos jogadores, aos treinadores e aos adeptos: o que seria o futsal sem vocês?? Aquele Obrigado!


Para todas as notícias e descrição dos jogos: http://almansor-futebol-clube.blogspot.com/.



Maio de 2010 / Catarina Pinto Xavier

Terça-feira, 22 de Março de 2011

MARCA – Associação de Desenvolvimento Local

Há coisas que deixam marca. Todos temos as nossas, seja no corpo, na alma ou na memória. Eu trago algumas de Montemor, dizendo pretensiosamente que são do “meu Alentejo”, que para os lados de Lisboa soa muito chique, mas para mim é muito natural, é a minha casa. Trago comido as expressões, o gosto pela boa comida, pelo pão, pelo verde da Primavera e pelo alaranjado do pôr-do-sol, e, normalmente às segundas-feiras, trago também as marcas de algum sotaque, que por estes lados, embora não seja muito acentuado, dá para se notar. Não sei se esta perspectiva tão pessoal esteve na mente de quem deu o primeiro passo na construção da Associação que protagoniza este mês “As nossas histórias, os nossos feitos”. Calculo que não lhe tenha sido alheia. Afinal – como tantas vezes aqui demonstrámos – os projectos bem sucedidos são liderados por pessoas que lhe imprimiram o seu cunho pessoal, os seus gostos, as suas ambições, as suas marcas. Se não houver verdadeiro envolvimento, se não houver aquele bichinho que nos faz ir mais além, tantas vezes por algo que não nos diz directamente respeito, a vontade perde-se, o projecto arruma-se, a ideia morre. Seja como for, uma coisa é certa. A ideia nasceu ligada ao “nosso Alentejo”, com o desejo bem vincado de não deixar esquecer as lembranças, as tradições, o que já foi parte da vida de todos e já não é, de fazer, ver e viver o que temos e nos faz bem, de dar o empurrão a quem por aqui ficou desamparado.

A MARCA é uma associação de desenvolvimento local, sediada em Montemor-o-Novo e nascida em 1996, com o objectivo de “contribuir de forma activa para o aparecimento e consolidação de uma estratégia de desenvolvimento qualificado para Montemor-o-Novo”. O objectivo é ambicioso e não pretende ser fechado, mas sim evolutivo, pronto a ser enquadrado em várias áreas e actividades. Ao longo destes catorze anos de existência já se sentem bem as “marcas” do que foi feito. Com mais ou menos sucesso, numas alturas com mais ritmo, noutras menos, o certo é que esta associação não tem parado de lançar desafios aos que com ela se cruzam, não deixando nunca o seu habitat: o concelho de Montemor-o-Novo.

A MARCA promove acções nas áreas sócio-cultural, de valorização do património ambiental e construído, no apoio à criação de empresas, no apoio às artes e ofícios tradicionais, da cidadania, cooperação e educação para o desenvolvimento e promoção de igualdade de oportunidades, de preservação do meio ambiente. Os muitos projectos desenvolvidos já lhe valeram o estatuto legal de entidade equiparada a Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA) e a acreditação para a formação pela Direcção Geral do Emprego e das Relações de Trabalho. Mas espreitemos um pouco do que tem sido feito.

Tudo começou com o Telheiro. As primeiras acções promovidas pela MARCA-ADL aconteceram no Telheiro da Encosta do Castelo. Esta unidade de produção de materiais cerâmicos para construção (tijolo burro e tijoleira) foi “redescoberta” num levantamento realizado em 1990, pelo qual se identificaram na região antigos telheiros em diversos estados de conservação. Foi então elaborado e concretizado um projecto de recuperação desse Telheiro, o qual tem vindo a ser gerido pela MARCA desde 1997, ao abrigo de um protocolo celebrado com a Câmara Municipal. Neste espaço têm sido desenvolvidas várias actividades, transformando-o verdadeiramente na imagem de marca desta associação. Aqui produzem-se os tradicionais tijolo de burro e tijoleira, ensina-se esta arte e também a arte da cerâmica decorativa, desenvolvem-se as artes plásticas, ligando as técnicas e materiais tradicionais à produção artística contemporânea, acolhem-se os curiosos, os jovens e as crianças, promovem-se workshops e encontros científicos. O Telheiro apresenta-se, por isso, como um espaço dinâmico, que se quer vivo e recomenda-se, e é prova irrefutável de que do antigo podem – e devem – nascer novas potencialidades. Já por lá passou? Nem que seja só para espreitar?

Em 1999, com base num trabalho de recolha de uma colecção de brinquedos populares pela Oficina da Criança de Montemor-o-Novo na década de 80, no seu estudo antropológico (parte enquadrado por uma bolsa atribuída pelo Instituto Camões em 1998) e na realização de 2 exposições, acreditando no potencial económico da produção e comercialização de brinquedos populares com novas valências didácticas e artesanais, a MARCA organizou um Curso de Brinquedos Populares em Lavre ao abrigo do Programa Escolas-Oficinas do IEFP e, desde Julho de 2001, promove um Curso de Brinquedos Populares no Ciborro, financiado pelo Programa Operacional Emprego, Formação e Desenvolvimento Social. Esta formação permitiu a criação da oficina de produção de brinquedos populares de Montemor-o-Novo – a “Chica Amorica” –, brinquedos esses construídos com materiais existentes no meio natural (madeira, cortiça, cana, lã, barba de milho, bugalhos, bolotas, palha) e doméstico (trapos, botões, arames, latas) e que são reproduções dos modelos do brinquedo popular.

Na área do desenvolvimento sócio-comunitário, destacam-se os projectos “Monte Maior”, “Além Monte” e “DesEnvolver”. Com o “Monte Maior”, que foi aprovado no Programa Operacional Emprego Formação e Desenvolvimento Social no final de 2001, estabeleceram-se parcerias que ainda hoje perduram, com Juntas de Freguesia, Centros Paroquiais, Escolas, IPSS, Centro de Saúde, Centro de Emprego, Segurança Social e outras instituições locais e regionais, através das quais se desenvolveram actividades intergeracionais, de informação sobre o euro, ocupação criativa dos tempos livres dos jovens, levantamento de contos populares, apoio a cidadãos potencialmente excluídos, entre outras. Com o “Além Monte”, em 2003, desenvolveram-se acções de formação, workshops temáticos e encontros, promoveu-se a formação contínua de agentes e técnicos, contribuindo igualmente para a partilha de experiências de qualidade de intervenções na área social, houve uma maior aproximação à população de Montemor indo ao encontro das suas reais necessidades. De 2005 a 2007, o “DesEnvolver” deu primazia à formação não formal junto dos jovens em diversas áreas, como ambiente, emprego, inclusão social, e criou uma rede de voluntariado amplamente participada.

O ambiente tem sido sempre enquadrado nas actividades da associação. Têm sido muitos os projectos relacionados com sensibilização ambiental, informação, reflexão conjunta, valorização da paisagem e lazer ambiental, entre outros. Apenas para dar um exemplo, ao nível da sensibilização ambiental, foram desenvolvidos os projectos “O Lince Ibérico na nossa região”(2000/2001), “Morcegos – Os Nossos Amigos Voadores” (2001/2002), “De frente para o Rio Almansor” (2003), “Os Segredos do Montado” (2203/2004), “Jardins de Cá, Jardins de Lá” (2006/2007).

Muito famosos são os "Passeios da Primavera", concebidos e organizados anualmente pela MARCA-ADL desde 1999. Compreendem cerca de seis percursos temáticos durante a Primavera, no espaço rural alentejano (Montemor-o-Novo e Évora). O projecto pretende promover alternativas criativas para o desenvolvimento dos territórios rurais, em resposta a um desejo crescente de aproximação à natureza e de conhecimento e fruição dos valores e saberes do mundo rural. O passeio deste ano já tem data marcada: realizar-se no próximo dia 2 de Maio e terá como tema "Ervas aromáticas e medicinais- mezinhas e saberes de outros tempos", com mestre José Salgueiro.

Podia continuar a enumerar os projectos e iniciativas desenvolvidas por esta associação, a destacar os seus objectivos louváveis e o esforço que sempre tem sido feito de, com poucos técnicos e poucos recursos, ir sempre mais além na busca de dinamismo, iniciativas e desenvolvimento para o nosso concelho. O que fiz foi apenas uma espreitadela pelo buraco da fechadura, como se quisesse fazer um cartaz que chamasse a atenção. Não incluí aqui os livros publicados, as acções de formação, as novas tecnologias de informação… foi apenas um chamar de atenção. Agora compete-nos bater à porta para ver ainda mais, resta-nos participar, levar ideias, fazer parte. A porta está sempre aberta, como sempre esteve, no Largo General Humberto Delgado n.º 7, 1.º (Apartado 188) 7050-123 Montemor-o-Novo (Tel/Fax: 266891222) Mail:marca.adl@mail.telepac.pt

Nuns anos com mais apoios que noutros, umas vezes merecendo o reconhecimento do trabalho e noutras vezes não, a MARCA tem sabido adaptar-se às conjunturas, sem deixar de propor desafios, sem deixar de ter projectos, sem deixar de estender a mão. Porque tudo é possível quando se quer e mais vale ir fazendo aos poucos que ficar sentado à espera da grande bonança. É que essa só chega para os que se preparam e procuram, os que arregaçam as mangas para ultrapassar obstáculos e preconceitos.


Abril de 2010
Catarina Pinto Xavier