Oficina do Canto

Faço parte do público. Dos que gostam de ouvir, dos que vão batendo com a mão na perna ao ritmo da melodia, dos que batem palmas no final, com entusiasmo, e até mesmo (porque não admiti-lo) com orgulho. Gosto de ver, de ouvir, de dar os parabéns, quando merecidos. Sou do tipo exigente, que não vai sempre, mas quando vai, sabe ao que vai e cria expectativas. E não fico indiferente. Faço parte daquele público que se emociona, que entra no espectáculo de corpo e mente, e que, em alguns momentos, é capaz de ficar com pele de galinha ou com a lagriminha ao canto do olho. E não porque se esteja a assistir a um espectáculo do género “drama”, não. É mesmo pela beleza de certos momentos, vá se lá conseguir explicar o porquê...
           
A minha relação com aqueles de que vos venho falar este mês, assim como em relação a tantos outros que aqui já mereceram destaque, é essa: eu faço parte do público. Por conta deles está o espectáculo, onde as canções são o prato principal. Falo deles, porque são muitos...hoje em dia, 92! Ora, venham daí dar uma espreitadela a uma oficina onde os principais instrumentos de trabalho são individuais, únicos, intransmissíveis e muito estimados: as vozes.

Espectáculo em 1997
Tudo começou com um convite dirigido a Maria do Amparo Pereira, por todos conhecida como Maria do Amparo, no início de 1997. A Câmara Municipal de Montemor-o-Novo lançou a ideia de fazer uma oficina de música (um atelier ou workshop de música) para crianças no espaço da Oficina da Criança, que seria animado por Maria do Amparo. Porque não? Parecia uma boa ideia. Por isso, da ideia passou-se à acção, e, com uma viola, boa disposição e vontade, lá começaram as cantorias com a criançada. A partir daqui a história é muito simples, ainda que cheia: os gaiatos gostaram da experiência e aderiram em grande número, cheios de vontade de continuar a cantar. Foi assim que, logo nesse ano, em 1997, as meninas e meninos da Oficina do Canto (naquela altura, ainda só os mais novos) actuaram pela primeira vez no Parque Urbano, no dia mundial da criança, onde cantaram uma canção com Lúcia Moniz, num evento em que participavam muitas outras crianças das várias escolas do Concelho de Montemor. A experiência foi positiva e, logo aí, Maria do Amparo percebeu que havia asas para voar.
           
Espectáculo de lançamento do primeiro CD - 5 de Fevereiro de 1998
A preparação de um disco de Natal foi a ideia seguinte, a que todos aderiram com entusiasmo. Em Dezembro de 1998, a Oficina do Canto lançou o seu primeiro CD, com cantigas de Natal: os temas “Mãe Natal” e “Rodolfo”, que o integravam, são por todos conhecidos e, desde então, cantados no Natal, por miúdos e graúdos. O projecto estava definitivamente lançado.
           
Espectáculo "Uma Carta às Cores" - 10 de Novembro de 2007
Depois da edição daquele primeiro disco, além de concertos por todo o país (até mesmo nos Açores), sem falar de algumas actuações em programas de televisão, outros dois discos lhe seguiram, tendo o último, intitulado “uns já grandes e outros menos”, sido editado em 2004. A Oficina do Canto conta já com muitos espectáculos no seu curriculum, dos quais podemos destacar (sem desprimor para os demais) “Peregrinação” e "Uma Carta às Cores", este último apresentado no Cine-Teatro Curvo Semedo em 10 de Novembro de 2007, marcando o 10.º aniversário da Oficina do Canto com uma mensagem de paz. 

Musical "adoles-SER" - Maio de 2009
A ideia de juntar às canções a representação e a dança não demorou a surgir. Em Novembro de 1999, a Oficina do Canto apresentou o seu primeiro musical: “Mágicos, Travessos e Patrimónios”, do qual resultou depois o seu segundo trabalho discográfico. O segundo, "121 em 1503", estreou no dia 8 de Março de 2003, integrando as comemorações dos 800 anos do 1.º Foral e 500 anos do 2.º Foral de Montemor-o-Novo. Mais recentemente, em 2009, o musical “ADOLES-SER” granjeou também muito sucesso. A concepção e direcção destes musicais esteve a cargo de Maria do Amparo e Vitória Cardona, contando com a colaboração de muitos outros profissionais talentosos, e os três foram escritos para a Oficina do Canto, sempre com a preocupação de reflectir a faixa etária dos participantes, as suas preocupações e fantasias. Neste momento, a Oficina do Canto está a preparar o próximo musical, cuja estreia se prevê para o próximo ano. À conta desta reportagem, pude assistir a um ensaio (ainda em jeito de workshop) e já tenho algumas pistas sobre o quarto musical, mas prometi nada desvendar... E, por isso, por aqui me fico.
           
Na inauguração do Centro Juvenil de Montemor-o-Novo - 18 de Julho de 2008
Mas deixemos agora os feitos, e abordemos o que é. Em termos muito simples, a Oficina do Canto é um coro composto por crianças e jovens, a partir dos 4 anos, dirigido pela Maestrina Maria do Amparo, onde, principalmente, se pretende fomentar o gosto pela música e pelo canto. Mas não é só. E quem o dizem são os miúdos e os já menos miúdos, os protagonistas deste mês. São eles que se entregam de corpo e alma a cada novo projecto que lhes é proposto, com toda a seriedade, seja uma nova canção, seja a preparação de um novo musical (que pode prolongar-se por mais de um ano). São eles que se empenham, que vibram, que gostam, que ficam nervosos, que descobrem em si mesmos novas qualidades, que aprendem, que ensinam, que crescem, que respeitam a música e quem a faz, que sabem estar, em cima e fora do palco, que fazem amizades, que dão o melhor de si, e tudo isto, a cantar e porque querem cantar. O ambiente é extraordinariamente descontraído e divertido – posso dizê-lo porque estive por lá. Todos têm o seu espaço e respeitam o do outro, pelo que há sempre “uma organização na anarquia”. Cada um é como é e, por isso, o mais importante é a diversão. Têm que gostar de estar ali, de pertencer ao grupo que é a Oficina do Canto, a partir daí todas as canções são mais fáceis de cantar.

A Oficina do Canto conta hoje com 92 jovens, todos montemorenses, salvo uma ou outra excepção, entre os 4 e os 27 anos. Muitos começaram bem pequenos e ainda não deixaram de cantar, outros já saíram – porque, por exemplo, foram estudar para fora – e agora pediram para voltar. E aqui todos podem entrar. Não interessa o talento vocal, ter mais ou menos conhecimentos musicais, isso vem depois. Por isso, não há castings. O que importa, contudo, é saber se o miúdo gosta, se está à vontade, se se diverte. Se isso não acontecer, não vale a pena insistir. Ao todo, ao longo dos seus 14 anos, mais de 400 miúdos passaram pela Oficina do Canto.

Na festa do 30.º Aniversário da "Oficina da Criança", em 2011
Actualmente os ensaios são às quartas-feiras e aos sábados, no Centro Juvenil. Por uma questão logística – que bem se compreende – o grupo é divido em três: o grupo dos 4 aos 8 anos de idade, que ensaiam às quartas-feiras, às 18h30; o grupo dos 8/9 aos 13/14 anos, que ensaiam também às quartas, mas às 17h30; e o grupo dos 14 aos 27 anos, que ensaia aos sábados. Nos próximos tempos, andarão a ensaiar o próximo musical, o que exige muitas horas de aprendizagem de técnicas de representação: é preciso ter noção dos movimentos corporais, das expressões faciais, da postura, da entoação, da coordenação, dos tempos, e por aí adiante. Este trabalho está a ser desenvolvido pelo Hugo Sovelas. À parte desta especificidade, os ensaios da Oficina do Canto, no que à parte musical concerne, são dirigidos por Maria do Amparo. Cada canção tem o seu tempo de estudo. Aprende-se sobre o autor da música e o autor da letra, muitas vezes pesquisando as suas biografias. Lê-se a letra com atenção, para todos perceberem o que estão a cantar, qual o significado das palavras. Os mais novos cantam apenas em português, porque, em regra, ainda não dominam outra língua estrangeira. Os mais velhos podem cantar noutras línguas, principalmente em inglês, pois já têm conhecimentos que lhes permitem compreender o que estão a cantar, começando o ensaio pela tradução da letra. O repertório abrange tanto canções infantis como canções tradicionais, canções de Natal, canções de autor ou até mesmo adaptações ou originais. As canções são escolhidas por Maria do Amparo e produzidas por Samuel Quedas. Com “o grupo dos sábados”, há a preocupação de ouvir a sua opinião sobre a música escolhida, até porque se fazem solos.

Às perguntas da praxe, responderam que o pior é, por vezes, os miúdos entrarem na Oficina do Canto por vontade dos pais e andarem obrigados. Não vale a pena e, no final, o resultado é o mesmo: acabam por sair. Respondendo ao melhor, pude ver o brilhozinho nos olhos: além da diversão de cantar, de estarem juntos e concretizarem o que se propõem, o melhor são os momentos de pura sintonia, em que se faz o “click” e todos percebem o que é para fazer. Nesses momentos, a melodia é perfeita, chega a emocionar! E, diria eu, se tais momentos se pudessem congelar, como numa fotografia, “Somos um” assentaria na perfeição como legenda.

Maio/ 2011
Catarina Pinto Xavier


P.S. Fotografias gentilmente cedidas pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo.

GAM - Grupo dos Amigos de Montemor-o-Novo

Se tivesse querido seguir uma ordem cronológica ou sequencial, esta não seria a minha vigésima terceira reportagem. E isto porque o Rancho Folclórico Fazendeiros de Montemor-o-Novo, o Coral de São Domingos, a Escola de Equitação e, mais recentemente, a Escola de Música Ensemble deram os seus primeiros passos no seio da associação que este mês é aqui protagonista: o Grupo dos Amigos de Montemor-o-Novo (“GAM”).

Conta a história que «no regresso de uma ida ao Abrigo de Velhos Trabalhadores, que se encontrava em construção, o Eng.º João Garcia Nunes Mexia com o Pe. Alberto Dias Barbosa passaram ao lado das espantosas ruínas do velho Convento de São Domingos. Este aproveitou a oportunidade para sugerir ao empreendedor Eng.º Nunes Mexia que se interessasse pelo aproveitamento daquele arruinado imóvel para fins culturais ou outros em benefício de Montemor-o-Novo. (…)»[1]. As “espantosas ruínas” eram de um Convento Dominicano (masculino) fundado na transição do séc. XVI para o séc. XVII, classificado como de interesse público desde 1941, onde se destacava a Igreja, revestida de um rico painel de azulejos do séc. XVII, raríssimos na Europa. Assim começa a história desta associação, fundada em 18 de Julho de 1967, cuja primeira direcção era constituída por Eng.º João Garcia Nunes Mexia, Reverendo Alberto Dias Barbosa, Dr. Nicolau José Torres e Dr. Artur Campos Figueira de Gouveia Salvador dos Santos. O primeiro grande projecto levado a bom termo pelo GAM foi a reconstrução do Convento de S. Domingos. As verbas angariadas, mercê de prestimosa contribuição quer de amigos, da população, da Câmara Municipal, da Fundação Calouste Gulbenkian e, em especial, do Sr. Eng.º João Nunes Mexia, permitiram restaurar o Convento e dar início ao Centro de Actividades Culturais e Económicas (C.A.C.E.).

Restaurado há já 40 anos, o Convento de S. Domingos é a sede da associação GAM e dela é actualmente indissociável. É que, logo de início, o principal objectivo do GAM foi dar vida ao Convento, criando um núcleo museológico, espaços para exposições, para estudos, para conferências e reuniões, e tudo quanto tivesse o propósito de manter em funcionamento esta “Casa”, sempre com disponibilidade e espírito de dedicação. E assim foi. Cumprindo o objectivo estatutário de promover a defesa e o progresso dos interesses sócio-culturais do Concelho de Montemor-o-Novo, através do estudo, divulgação, defesa e valorização do património histórico, artístico, monumental, arqueológico e etnográfico, contribuindo para a elevação do nível cultural e social da população, bem como através do estudo do desenvolvimento económico da região e da ampla propaganda turística do Concelho, o GAM comungou, desde o seu princípio, o espírito de dedicação a este lugar. Em 1986 o Museu de Arqueologia abriu as portas, partilhando da riqueza pré-histórica entre a descoberta das Grutas do Escoural em 1963 e os infinitos lugares megalíticos que constituem origens e bases destas populações em movimento, sob a direcção do arqueólogo Doutor Mário Varela Gomes. Hoje, além do Museu de Arqueologia, onde ainda não foi possível incluir os achados arqueológicos feitos na zona da barragem dos Minutos (de que o GAM é fiel depositário), o núcleo museológico do Convento de S. Domingos inclui a sala de Olaria, com peças de cerâmica pesquisadas e recolhidas por todo o país pela Prof.ª Margarida Ribeiro, a sala de Arte Sacra, com imagens, esculturas e paramentos religiosos, a sala de Etnografia, que testemunha os costumes e a vida económica da região (por exemplo, está aí recriada uma barbearia), a sala de Tauromaquia, onde está exposto o vasto espólio dos Forcados de Montemor-o-Novo, e a sala do Brinquedo, com uma grande colecção de brinquedos de antigamente. Mas não é tudo! O Convento de S. Domingos alberga ainda a Galeria de Arte, nos claustros, onde estão patentes exposições temporárias de artes plásticas, a Biblioteca, que está em fase de inventariação e organização para que possa ser aberta ao público e que é constituída por cerca de 14.000 livros, muitos pertencentes a colecções pessoais de ilustres de Montemor que foram doados ao GAM, e uma colecção de coches, charretes e carroças, a maior parte pertencentes ao Estado e de que o GAM é fiel depositário, há 30 anos à espera de verbas para serem restaurados, assim como de um espaço digno onde sejam expostos, sem sofrerem as agressões externas da chuva, do frio, do sol. De resto, cada canto do Convento guarda memórias de Montemor e de montemorenses, já que o espaço é preenchido com peças de toda a espécie, com mais ou menos valor histórico ou patrimonial, na sua maioria doadas ao GAM.

Mas as actividades desta associação não se ficam pela manutenção do Convento de S. Domingos e de tudo quanto nele existe, o que, como se pode compreender, já constitui tarefa árdua, financeira e pessoalmente absorvente. Todos os anos o GAM define o seu plano de actividades, visando promover a cultura, o ambiente, o desenvolvimento local e regional, o património histórico, o debate de ideias e questões pertinentes para o Concelho, e claro, não esquecendo a dinamização do espaço do Convento. Para este ano de 2011, estão agendados, para datas próximas, dois grandes eventos. No próximo fim-de-semana de 30 de Abril e 1 de Maio, o Convento de S. Domingos vai receber a Feira da Natureza, com doces conventuais, artesanato, produtos biológicos, mel e produtos à base de mel, e cujo programa, além de muitos momentos de animação cultural, inclui a inauguração da exposição de pintura de Alice Alves e uma conferência sobre ervas medicinais com o Mestre José Salgueiro. Depois, de 12 a 19 de Maio, o Convento de S. Domingos acolherá o XVI Circuito Internacional de Arte Brasileira, promovido pela “Colege Arte”, uma instituição brasileira sediada em Belo Horizonte, Minas Gerais, que, entre outros, tem por objectivo identificar, seleccionar e divulgar a riqueza e a diversidade da produção artística nacional brasileira, numa mostra itinerante de artistas brasileiros. Montemor-o-Novo aparece ao lado da cidade de Viena, na Áustria, e de Madrid (ver http://www.colegearte.com.br), como local de realização do XVI CIAB. A esta iniciativa associou-se também a Universidade de Évora, que realizará um concurso de pintura. Os trabalhos a concurso serão expostos na Igreja do Convento de S. Domingos e caberá aos visitantes escolher os 2 trabalhos vencedores, a cujos pintores será oferecido um atelier de formação em artes plásticas durante 5 dias no Brasil, com tudo pago. Até ao final do ano estão também agendados (e isto apenas para destacar os principais eventos) o almoço de aniversário do GAM, em Julho, que tem sido aproveitado para prestar a devida homenagem a instituições e personalidades de Montemor-o-Novo, a participação na Feira da Luz, e as jornadas do Ambiente, em Outubro, cujo programa inclui conferências, exposições e um concurso de fotografia.

A decorrer ao longo de todo o ano, estão as exposições de pintura e escultura na Galeria de Arte e as actividades de interacção com a comunidade montemorense, de que são exemplos a cedência do espaço da igreja e dos claustros a outras instituições de Montemor para eventos pontuais, a colaboração com o Espaço do Tempo, o lançamento de livros, a disponibilização do espaço para concertos (por ex. do Coral de São Domingos) inseridos nos programas do Ciclo da Primavera e do Ciclo de Outono.

Grande destaque merece a Universidade Sénior – Estudos Gerais, projecto principiado pela Dr.ª Ana Ribeiro da Mota Vacas e que se mantém hoje, com todo o dinamismo. A Universidade Sénior do GAM conta com 60 alunos, todos montemorenses, com idades a partir dos 50 anos, e que pagam uma inscrição, podendo escolher as aulas que querem frequentar. Há aulas a decorrer durante toda a semana, na Sala do Capítulo, existindo também uma sala com computadores. São várias as disciplinas leccionadas voluntariamente por sócios, na sua maioria professores reformados: pintura, português, inglês, francês, história, literatura, cidadania, canto coral, etc. Por aqui não se fazem exames, partilham-se conhecimentos, dá-se espaço à cultura geral e fazem-se, isso sim, visitas de estudo, uma por trimestre. E como manda a tradição universitária, também já se organizou uma tuna.

O GAM tem actualmente cerca de 300 sócios, um número que tem tendência a diminuir, tendo em conta que a maioria dos sócios já tem alguma idade e que, infelizmente, por desinteresse dos jovens, não tem havido renovação de gerações. Como associação, o GAM tem uma direcção, composto por 5 membros, um conselho fiscal, com 3 membros, e a assembleia-geral, cuja mesa é composta por 3 membros. Financeiramente, o GAM depende da Câmara Municipal, cujo donativo anual serve para pagar ao único funcionário da associação, sem o qual seria impossível ter o núcleo museológico aberto ao público, e de instituições e particulares que oferecem donativos, na sua maioria destinados à despesas com a manutenção do edifício do Convento que precisa de “cuidados continuados”.

Perguntando pelo pior a quem está à frente dos destinos do GAM há já muitos anos, lamentam a falta de interesse dos próprios montemorenses e o desconhecimento do Convento de S. Domingos pela maioria. Por exemplo, foi preciso que grupos de outras cidades viessem visitar o Convento para que associações montemorenses tivessem vontade de fazer o mesmo. Por outro lado, são cada vez menos as visitas ao núcleo museológico, principalmente num cenário de crise económica. A isto acresce o facto de não só não existirem de momento apoios financeiros para novos projectos, como, e principalmente, muitos protocolos que se pretendiam celebrar com a Câmara Municipal, que não acarretariam custos para esta edilidade, estarem à espera de seguimento há anos. Não obstante, é a razão da existência do GAM que vai fazendo com que o esforço e o tempo valham a pena: a paixão por Montemor, pela sua história e cultura, pelo que cá se fez, se faz e se há-de fazer.

Abril/ 2011
Catarina Pinto Xavier

P.S.: Um agradecimento especial ao Sr. António Romeiras, pela sua dedicação a esta associação (actualmente e de há anos para cá) e pelo tempo que me concedeu.




[1] in Alberto Dias Barbosa, Lugares da Memória em Montemor-o-Novo – no oitavo centenário da outorga do Foral de D. Sancho I, Montemor-o-Novo, 2003.

Secção de Atletismo dos Bombeiros Voluntários de Montemor-o-Novo

Entrei em terreno completamente desconhecido. Tive a necessidade de perguntar tanto pela actividade a que se dedicam, como pelas histórias e feitos do grupo que este mês vos venho dar a conhecer (ou devo dizer, relembrar?). É que, devo confessar, além de ser completamente leiga quanto a esta matéria, também (e apenas por enquanto) não sou adepta. Às tantas, depois de várias explicações e contextualizações, disseram-me aquilo que, afinal, todos me dizem: “é muito difícil explicar, só sabe quem faz, quem sente”. E não pude deixar de concordar, embora seja sempre possível ficar a conhecer e, a partir daí, começar a suscitar interesse. Se não conhecemos, não sabemos se gostamos. E se gostarmos, pode tanto ser numa perspectiva participativa, como numa de dar apoio, de incentivar. Por isso, com tantas actividades em Montemor, com tantas associações, não se atreva a dizer que por aqui não há nada que fazer. Nessa altura, repense, volte atrás, e corrija: se não faço desporto, se não me envolvo em actividades ou projectos culturais, sociais, musicais, pedagógicos, ambientais, e por aí adiante, é porque decidi não o fazer. E talvez, nesse momento, mude de ideias.

Este mês a matéria que aqui tratamos é o atletismo de meio fundo ou de fundo – para aqueles que são tão leigos como eu, estou a falar de corrida (corta-matos, maratonas). As histórias e os feitos são da SECÇÃO DE ATLETISMO DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE MONTEMOR-O-NOVO. Dê-se, então, o sinal de partida e prossiga-se com energia, resistência e controlo do esforço físico, para que cheguemos à meta desta página de jornal com o nosso objectivo cumprido! (Serei capaz de contar, em passo de corrida, o que é, o que fez e o que faz a SECÇÃO DE ATLETISMO DOS BVMN?)

A história da SECÇÃO DE ATLETISMO DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE MONTEMOR-O-NOVO começou há 25 anos atrás, quando os comandantes do corpo de bombeiros voluntários de Montemor-o-Novo convidaram alguns rapazes que, na altura, corriam por desporto, para ingressarem nos bombeiros e criarem uma secção de atletismo. Estávamos em 1986 e a ideia foi não só incentivar à prática do desporto, proporcionando melhores condições aos jovens atletas, como convencer os rapazes a serem bombeiros. A condição foi aceite e assim nasceu a Secção de Atletismo, que ainda hoje se dedica exclusivamente ao atletismo de meio fundo e de fundo (vulgo, corrida).

Agora, olhando para trás, até parece que 25 anos passaram num piscar de olhos. Mas não se chegou até aqui sem trabalho, sem papeladas, sem apoios, sem treinos, sem suor, sem quedas, sem lágrimas, sem muitos e muitos quilómetros. Tudo foi necessário e os ingredientes para a superação dos objectivos mantêm-se. Não é possível precisar todos os momentos chave, mas a verdade é que a evolução é visível. Se no início os atletas iam às provas que se realizavam nos concelhos vizinhos, hoje os atletas participam em provas, seja de estrada, seja de corta-mato, pelo país inteiro e até mesmo em Espanha. Em média, a Secção de Atletismo participa em 30 provas por ano. A própria modalidade evoluiu. Hoje há mais conhecimento, há mais comunicação entre os atletas e as associações ou os clubes, há revistas especializadas da modalidade, há mais e melhores provas, há também mais adeptos.

Actualmente, a SECÇÃO DE ATLETISMO DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE MONTEMOR-O-NOVO conta com 28 atletas, 27 rapazes e uma rapariga, que se repartem desde o escalão de infantis (a partir dos 12 anos) até ao escalão de veteranos (até aos 55 anos). Todos os atletas são federados e têm seguros desportivos, sendo que a Secção de Atletismo integra, enquanto associada, a Associação de Atletismo de Évora. Além destes atletas, que treinam entre 3 a 4 vezes por semana, para estarem aptos a participarem em provas de corta-mato ou de estrada, existe também a “equipa das caminhadas”, chamemos-lhe assim. São cerca de 60 pessoas (ou caminheiros) que participam em provas de estrada com poucos quilómetros (entre 5 a 10 km) e que, em regra, fazem o percurso a andar ou em passo de corrida lento. Não são atletas federados, mas apreciam a modalidade e gostam de participar. Fazem, por isso, parte da Secção de Atletismo, beneficiando do apoio logístico. Por exemplo, enquanto os atletas federados participam, em 20 de Março, na Meia Maratona de Lisboa 2011, com 21 km, a “equipa das caminhadas” participa na Mini Maratona que, embora integrada naquela, tem apenas 7 km.

Dos feitos da SECÇÃO DE ATLETISMO DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE MONTEMOR-O-NOVO destaca-se a organização anual, em conjunto com a Câmara Municipal de Montemor e Juntas de Freguesia de Nossa Senhora do Bispo e Nossa Senhora da Vila, de duas provas: Critério de Corta Mato Paulo Guerra (corta-mato) e Grande Prémio de Atletismo “Cidade de Montemor-o-Novo” (prova de estrada). Esta última, teve a sua 11.ª edição no passado dia 27 de Fevereiro e contou com a participação de 1100 atletas, divididos pelos vários escalões. No Grande Prémio de Atletismo realizaram-se 3 provas, sendo que, na prova principal, de 10 km, participaram, este ano, 332 atletas. Estas provas exigem uma enorme logística a atingem orçamentos avultados, pelo que sem o apoio do Município e das Juntas de Freguesia seriam impossível a sua organização. Seja como for, estas provas, já muito conhecidas entre os praticantes da modalidade, dinamizam a cidade e o desporto, trazem muitos atletas ao concelho e projectam o nome a imagem de Montemor.

Relativamente às provas em que participam e aos resultados alcançados, nada melhor que estar atento às notícias da Secção de Atletismo em http://bvmontemornovoatletismo.blogs.sapo.pt/, transmitidas por quem sabe e participa. Afinal, só os bons resultados alcançados pelos atletas montemorenses nos últimos meses depressa esgotariam esta folha de jornal. Mostrando o que aprendi, posso dizer que no que concerne ao corta-mato, existem campeonatos regionais e campeonato nacional. Aliás, a Secção de Atletismo orgulha-se de, em 1990, o atleta José Manuel Freitas ter sido campeão nacional de corta-mato no escalão de juvenis. No que respeita às provas de estrada, estas são independentes, não existe um campeonato. Cabe aos atletas inscreverem-se nas provas, tentando sempre melhorar o seu desempenho. Não podemos esquecer, porém, que existe uma (grande) diferença entre o atletismo praticado por atletas amadores (como os da Secção de Atletismo) e os atletas profissionais, que integram o denominado atletismo ou grupo de elite, tendo tanto mérito aqueles como estes, principalmente quando, no caso dos amadores, treina-se apenas nas horas livres, faltam apoios e condições de treino e não há treinadores exclusivos.

Perguntando pelo pior, vem a resposta do orçamento, que é sempre mínimo, quando se tem que assegurar inscrições na federação, seguros de saúde, atestados médicos, equipamentos e transportes. Com poucos recursos, não se podem aceitar muitos atletas. O apoio financeiro da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e da empresa Mota-Engil é, por isso, fundamental. Também a parte da “papelada”, toda a burocracia e logística necessárias, é muito chata. Normalmente sobra para o mesmo, a quem todos devem uma palavra de agradecimento. É que não havendo alguém que assegure a estrutura da Secção de Atletismo, que dê conta de todos os trâmites e exigências legais, que saiba das provas em calendário e trate de todas as inscrições e do transporte, a Secção de Atletismo não existia. Sem atletas não se faz desporto, mas sem associações, sem clubes, não se reúnem atletas, não se fazem provas nem jogos e, desta forma, também não há desporto. Infelizmente, a falta de pessoas para ajudar na administração é um mal em muitas associações e clubes. Importa contrariar esta tendência!

O melhor é passar a meta e perceber que os objectivos foram alcançados. É aprender a dar mais de si, que sem esforço não se alcançam resultados. É treinar o corpo, é construir uma mentalidade forte para nunca desistir. O melhor é a competição. É praticar uma modalidade individual sem nunca estar sozinho. O melhor é correr!!

Março/ 2011
Catarina Pinto Xavier

Agrupamento 894

Desta vez fiquei por “casa”. Não foi preciso pesquisar. Não foi preciso marcar. Não apontei no meu bloco de notas. Trouxe a máquina fotográfica, claro, utensílio indispensável a quem gosta de guardar os melhores momentos. E por aqui, esses não são raros, antes são muitos e bons. Não sei, por isso, se me deveria sentir mais à vontade ou se, na verdade, é maior a responsabilidade. É que hoje trago-vos as histórias e os feitos da “minha” associação e acabo por, de certa forma, desempenhar os dois papéis: o entrevistador e o entrevistado. Afinal, ao fim de 17 anos de escutismo, já terei que ser capaz de explicar, por experiência própria, o que é e o que faz o Agrupamento 894 de Montemor-o-Novo, porque também cresci por aqui, participei em muitas actividades, vivi muitos momentos, fiz amigos, criei histórias, faço parte de algumas fotografias e, mais importante, estou para continuar. Será possível não escrever esta reportagem na primeira pessoa?

O Agrupamento 894 é o “grupo” de escuteiros local, podemos dizer assim, é a estrutura local onde, no concelho de Montemor-o-Novo, se vive o escutismo. O Agrupamento 894 faz parte da associação Corpo Nacional de Escutas (CNE) – Escutismo Católico Português, sendo um dos mais de 1.000 Agrupamentos desta associação escutista que, um pouco por todo o país, são a estrutura base do CNE, a comunidade escutista local, que, normalmente integrada numa paróquia, como é o caso do Agrupamento 894, é composta por diferentes grupos etários em que se repartem, consoante a idade e desenvolvimento, os jovens associados.

Mas, o que é o Escutismo? O Escutismo é um Movimento Mundial, fundado em 1907 por Robert Stephenson Smith Baden-Powell (conhecido, entre os escuteiros, por BP) de carácter não político, aberto a todos, com o propósito de contribuir para a educação integral dos jovens de ambos os sexos, baseado na adesão voluntária a um quadro de valores expressos na Promessa e Lei escutistas, através de um método original que permite a cada jovem ser protagonista do seu próprio crescimento, para que se sinta plenamente realizado e desempenhe um papel construtivo na sociedade. Os protagonistas do escutismo são, por isso, as crianças e os jovens, que prosseguem o ideal de “deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraram”. Os adultos também têm um papel importante neste movimento, pois são eles que, enquanto dirigentes (ou chefes) e voluntariamente, programam e desenvolvem as actividades dos escuteiros e são responsáveis por eles.
O Corpo Nacional de Escutas (e, por isso, o Agrupamento 894) está organizado pedagogicamente em 4 secções, associadas a faixas etárias, com nomenclaturas próprias. Dentro de cada secção, os jovens organizam-se em pequenos grupos (bandos, patrulhas ou equipas), tendo cada elemento uma função específica. Os escuteiros usam uniforme e, consoante a secção a que pertencem, usam um lenço de determinada cor, elemento mais importante do uniforme e que representa a Promessa, que é o compromisso pessoal que cada um faz para ser escuteiro. Na I.ª Secção os elementos, crianças com idades compreendidas entre os 6 e os 10 anos, são denominados Lobitos, estão divididos em Bandos, a unidade por eles formada chama-se Alcateia e a cor do lenço é o amarelo. Na II.ª Secção os elementos, crianças com idades compreendidas entre os 10 e os 14 anos, são denominados Exploradores, estão divididos em Patrulhas, a unidade por eles formada chama-se Expedição e a cor do lenço é o verde. Na III.ª Secção os elementos, adolescentes com idades compreendidas entre os 14 e os 18 anos, são denominados Pioneiros, estão divididos em Equipas, a unidade por eles formada chama-se Comunidade e a cor do lenço é o azul. Na IV.ª Secção os elementos, jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 22 anos, são denominados Caminheiros, estão divididos em Tribos, a unidade por eles formada chama-se Clã e a cor do lenço é o vermelho. Cada secção tem uma equipa de animação, que é a equipa constituída por dirigentes (que têm lenço de cor verde escuro), sendo responsável pelos escuteiros e pelas actividades desenvolvidas.

Mas voltando ao “nosso” Agrupamento... O Agrupamento tem a sua sede na Carreira de São Francisco, entre o cemitério e a Igreja de São Francisco e conta actualmente com cerca de 80 associados (crianças, jovens e adultos voluntários). As actividades dos escuteiros decorrerem, normalmente, aos sábados, das 15h às 19h30min, terminando com a participação na eucaristia das 18h30min, na Igreja do Calvário. É na sede que os escuteiros, trabalhando em equipas, desenvolvem os seus projectos, são eles que escolhem o que querem fazer, onde, quando e com que imaginário. É o método “Ask the boy” que permite aos escuteiros serem protagonistas do seu próprio crescimento. Em função dessas escolhas, os dirigentes devem orientar pedagogicamente as actividades, não esquecendo os valores que se pretendem transmitir e as competências que devem ser ensinadas. Sendo a natureza o ambiente privilegiado para as actividades escutistas (os acampamentos, as caminhadas, os jogos ao ar livre são a base das actividades), não é o único, e os escuteiros são livres de escolherem onde querem viver as suas aventures. Hoje um acampamento, amanhã conhecer uma cidade, por exemplo. O importante é não esquecer o principal objectivo: a formação cristã e integral dos escuteiros. Objectivo este que hoje, talvez mais que nunca, faz do escutismo um complemento essencial à educação dada na escola.

            No passado sábado, dia 22 de Fevereiro, o Agrupamento 894 completou 22 anos de idade. Reza a história que foi em Setembro de 1985 que se iniciou a ideia de fundar um Agrupamento em Montemor, partindo tal iniciativa do Senhor Padre Alberto, que, com esse objectivo, pediu a colaboração de alguns montemorenses. Durante quatro anos, até Janeiro de 1989, altura em que foi recebida a confirmação da Junta Central em como o Agrupamento iria ter o número 894, o Agrupamento esteve em processo de formação. Em 12 de Fevereiro de 1989, realizaram-se as promessas dos primeiros associados do Agrupamento. Foi um dia em grande, com a colaboração de várias instituições e particulares montemorenses! Várias são as pessoas, principalmente adultos, a quem o Agrupamento deve muito, pela dedicação, pela força de vontade, pela disponibilidade e espírito de serviço. A quem esta descrição encaixa na perfeição, o nosso agradecimento sincero. Sem vocês o Agrupamento não poderia hoje orgulhar-se de completar 22 anos de idade!!!

Para comemorar data tão importante e cheia de significado para todos os escuteiros montemorenses, o Agrupamento celebrou no fim-de-semana de 11 e 12 de Fevereiro a actividade das Promessas. As Promessas são sempre um ponto alto do ano escutista, pois, além de se tratar de uma actividade de agrupamento em que todos participam, incluindo a família dos associados, a cerimónia das promessas propriamente dita é especialmente importante para os escuteiros que vão receber o lenço pela primeira vez ou mudar de secção (entre miúdos, trocar de lenço; oficialmente, denomina-se investidura). Ou seja, ao fazer a sua Promessa o jovem assume o seu compromisso, perante Deus e a comunidade, de “Cumprir os seus deveres, para com Deus, a Igreja e a Pátria; Auxiliar o seu semelhante em todas as circunstâncias; Obedecer à Lei do Escuta”, isto é, de ser escuteiro e assumir-se como tal.  

            O fim de semana iniciou-se na sexta-feira à noite, com a Vigília de Oração na Igreja do Calvário, cerimónia de partilha em que os escuteiros relembram a Lei e os Princípios do escutismo. No sábado, dia 12 de Fevereiro, realizou-se um jogo de agrupamento em que, divididos em equipas, os escuteiros caminharam, completaram tarefas, fizeram jogos, testando os seus conhecimentos, destreza, perspicácia e condição física, onde uns ganharam, outros perderam e todos se divertiram. Às 18h30min, na eucaristia da Igreja do Calvário, realizou-se a cerimónia das Promessas, onde lobitos, exploradores, uma pioneira e uma dirigente receberam o seu novo lenço. O dia terminou com uma festa no salão da cooperativa do Bairro da Ché, a quem agradecemos a disponibilização do espaço, onde não faltou comida, boa disposição, muitas fotografias e recordações e, claro, um enorme bolo de aniversário, com direito a canção de Parabéns (ou várias...).

Escrever sobre o escutismo, sobre o Agrupamento 894, sobre o que já fizemos e faremos, sobre os montemorenses que por aqui passaram, que aqui cresceram e fizeram amigos, não foi, de todo, o que acabei de fazer. Deixei-vos apenas uma introdução, um cheirinho a... É que se o pior de ser escuteiro é não ter mais tempo disponível, mais meios e dinheiro para as nossas actividades, o melhor é aprendermos a transformar o impossível em possível, a ver nos problemas oportunidades, a sermos desenrascados, responsáveis, cidadãos activos, positivos, bem dispostos... Porque, por aqui, não se ensinam valores, vivem-se, e, às tantas, viver de outra forma não seria natural, não seriamos nós...Afinal, “Ser escuteiro é o melhor que há”.

Fevereiro/ 2011
Catarina Pinto Xavier

Clube de Automóveis e Motas Antigas de Montemor-o-Novo

Cada um tem os seus “hobbies”, passatempos, paixões ou quebras na rotina, como lhe queiramos chamar. Há os mais comuns e há os que só alguns têm. Há os exigentes e os mais populares. Como se diz, há para todos os gostos. Desta vez, usei o meu “hobbie” para conhecer um outro que atrai principalmente pessoas do sexo masculino, é exigente, pode sair caro, carece de alguma paciência, incita a bastante procura, por vezes apela aos dotes de bom negociador e obriga a ter, pelo menos, um espaço livre numa garagem. Falo do “hobbie” de manter ou recuperar automóveis, motas ou motorizadas antigas.

Consegui – surpreendentemente – chegar à hora marcada. Pelos vistos, não estavam à minha espera, mas convidaram-me a ficar. Puxei uma cadeira, integrei o círculo que haviam formado à volta de uma mesa e comecei a fazer perguntas. De início, parecia que se tratava de uma entrevista formal. Mas eu não faço entrevistas. Depois, lá perceberam que a ideia era conversarmos todos e estivemos ali quase duas horas a falar de automóveis, motas e motorizadas antigas e principalmente do que os faz sentarem-se ali, todas as sextas-feiras à noite, no n.º 5 da Rua Capitão Pires da Cruz em Montemor-o-Novo, que tem pendurado na parede, como relíquia, a parte da frente do automóvel Daihatsu que pertencia ao Sr. Marques Alfaiate: o Clube de Automóveis e Motas Antigas de Montemor-o-Novo. (Às tantas lá chegou o Vice-presidente do clube, com que eu tinha falado na véspera, pedindo desculpas por se ter esquecido do combinado…).

O Clube de Automóveis e Motas Antigas de Montemor-o-Novo foi criado em 19 de Fevereiro de 2007. Como todas as associações, tem os seus estatutos, sede, órgãos (direcção, fiscal e assembleia), e claro, o mais importante, sócios. Actualmente o Clube conta com cerca de oitenta sócios, de todas as faixas etárias, 90% dos quais homens, na sua maioria de Montemor-o-Novo. Para se ser sócio basta gostar de automóveis, motas ou motorizadas antigas, não é preciso ter um veículo. No entanto, a maioria dos sócios é proprietário de um veículo, pelo menos. Falando de números, são muitos os sócios com motorizadas (a maioria), há os que têm um carro, há os que têm um carro e várias motorizadas e há os que já se consideram verdadeiros coleccionadores, seja de automóveis, seja de motorizadas, para os quais uma garagem já não tem, de todo, espaço suficiente (estamos a falar de dezenas de veículos!). Também há os que, além de veículos antigos, têm verdadeiros clássicos. E aqui – apenas para dar uma breve noção – um clássico é um carro fabricado há mais de 25 anos, preservado e mantido nas correctas condições originais, sem alterações; para os antigos importa somente a sua idade. Seja como for, apelar a que mais pessoas se associem nunca é demais. Os sócios pagam apenas € 30,00 (trinta euros) de quota anual e usufruem de várias vantagens, a começar por poder adquirir o seguro do seu veículo, que é obrigatório, muito mais barato.

Todos os segundos Domingos de cada mês, os sócios reúnem-se para dar um passeio. Os que os têm, levam os seus carros, motas ou motorizadas, e há sempre boleia para quem não tem. Normalmente, fazem um passeio de 10 a 15km, pela manhã, para os veículos – que não são utilizados no dia a dia – não estarem sempre parados. Também especialmente para os sócios, a sede, na rua no n.º 5 da Rua Capitão Pires da Cruz, que em tempos já foi sede do Grupo União Sport e que é cedida gratuitamente pela Sra. Luísa Freixo, está aberta, com bar, televisão, internet de banda larga e, claro, com a boa disposição daqueles que se reúnem para falar dos veículos, dos arranjos recentes que fizeram, das últimas novidades. O Clube tenta estar sempre o mais actualizado possível: adquire as revistas da especialidade, tem conhecimento e informa os sócios das feiras de peças de carros e motas que se realizam e dos encontros organizados por outros clubes, incentivando os sócios à participação, e para isso ajudando no que for possível. Por exemplo, nos próximos tempos, o Clube ajudará na divulgação e incentivará à participação na Mega concentração de motorizadas antigas prevista para o dia 11 de Junho de 2011 em Fátima: o objectivo é bater o recorde mundial!

Ainda especialmente para os sócios, o Clube organiza um almoço pela altura do Natal, que tem como objectivo reunir os sócios do Clube naquela quadra festiva, proporcionando o convívio, a mostra dos veículos, a troca de experiências e opiniões. Para este almoço, o qual inclui o passeio nos veículos, pela manhã, e é oferecido pelo Clube, estão convidados os sócios e as suas famílias. No ano que acabou de findar, o almoço que se realizou no dia 12 de Dezembro contou com perto de noventa pessoas.

Mais famosos e concorridos são os encontros que o Clube organiza. O encontro de motas e motorizadas antigas em Junho e o encontro de automóveis antigos em Julho. Estes encontros não são meros passeios entre sócios. Todos os interessados estão convidados a participar. A ideia é juntar um número grande de automóveis antigos e de motas e motorizadas antigas. Para que estes encontros se realizem com sucesso, é necessário programá-los antecipadamente, conseguir apoios e patrocínios, publicitá-los através de anúncios em jornais locais, na rádio, em revistas da especialidade e também através de cartazes que se espalham pela cidade. É necessário pedir o apoio da GNR e avisar a Câmara Municipal, além das Juntas de Freguesia em cujo território os veículos vão passar. Define-se um trajecto para o passeio durante a manhã, que deve ser dentro do concelho de Montemor-o-Novo. Escolhe-se um local, também no concelho, para realizar uma visita: um museu, uma adega, enfim, um local com interesse turístico. Depois, a esperada almoçarada, também num restaurante do concelho. Fixa-se um valor de inscrição, que se pretende acessível – e que tem sido conseguido graças aos patrocínios de empresas e privados e ao apoio da Câmara Municipal e das Juntas de Freguesia – o qual inclui a entrada no local a visitar, o almoço e uma t-shirt com o logótipo do Clube, que assinala a data e local do encontro. Deste modo, além do interesse nos veículos e do convívio que proporcionam entre os amantes dos antigos e dos clássicos, estes encontros têm o propósito de dar a conhecer o concelho, com todas as mais valias que isso traz. Tem-se vindo a privilegiar as freguesias rurais, organizando os encontros de maneira a que, no passeio, os carros ou as motas passem por determinada aldeia do concelho de Montemor.

Quando se pergunta o porquê deste “hobbie”, as respostas são várias, mas a explicação é a mesma: gosto. Gosto de manter um veículo que pertencia a um familiar mais velho – o que acontece muito no caso das motorizadas –, o gosto de recuperar algo antigo, o gosto de saber da história do veículo, o que representa, e, claro, o gosto de conduzir veículos completamente diferentes dos que existem hoje em dia, com todos os desafios que isso traz. Na maior parte dos casos, um carro ou uma mota ou motorizada antiga, bem mantida e a rodar, é motivo de orgulho do seu proprietário.

Questionados sobre o melhor, os sócios falam do convívio, dos encontros, da possibilidade de poderem mostrar os seus veículos a quem também os tem e percebe do assunto, da entreajuda quando se trata de recuperar os veículos. Em comum têm definitivamente a paixão pelos automóveis, motas e motorizadas antigas, o prazer de conduzir e ouvir o barulho do motor. Sobre o pior pouco ou nada têm para dizer. O número de sócios tem vindo a crescer, os apoios, ainda que pontuais, não têm faltado e os encontros organizados têm sido muito bem sucedidos. Claro que há as histórias das avarias, de quem trocou a gasolina pelo gasóleo, de quem ficou parado na berma. Mas isso não são pontos negativos, antes são situações que fazem parte, compõem o quadro, e acabam por se tornar memórias engraçadas, que fazem rir quem as conta e quem as ouve.

Se tem um veículo antigo, esteja atento ao blog http://camamn.blogspot.com/ e considere seriamente tornar-se sócio do Clube!
Janeiro / 2011
Catarina Pinto Xavier