Produções Fícticias Ciborrenses

Podia ser um grupo de teatro. Podia ser apenas um grupo de amigos. Podia ser um grupo de conterrâneos que de vez em quando se juntam para trocar umas ideias e beber umas “jolas”. Podia ser uma tertúlia. Podia ser um grupo de jovens com interesses políticos. Podia ser um grupo organizado com o intuito de levar as notícias da terra a quem não está por perto. Podia ser uma coisa muito séria. Podia ser pura brincadeira. Podia ser um clube ou uma espécie de associação. Podia ser um grupo de críticos. Podia ser um grupo de pensadores. Podia ser a voz de quem se preocupa e quer melhor. Podia ser um meio de divulgação de ideias. Podia ser apenas um blog. Podia ser o início da contestação. Podia ser o fim da macacada.

Podia ser tudo isto e talvez não seja nada.

Desta vez pus-me a caminho da minha aldeia preferida. Como já numa outra vez tinha referido, o concelho de Montemor-o-Novo é grande e se há muitas histórias e muitos feitos pela cidade, muitos haverá nas aldeias que a circundam. Por isso fui até ao Ciborro. A minha aldeia preferida, aquela que é especial. E digo-o sem desprimor para as demais, que todas têm as suas gentes e virtudes. Mas todos temos direito à nossa preferência, a gostar mais de uma em particular. E eu gosto do Ciborro. Gosto da terra, das pessoas, das histórias e tradições, da união. É a aldeia da minha família materna (sim, que não se pode falar de ninguém que seja do Ciborro ao pé da minha mãe que ela vai logo dizer que é nosso(a) primo(a)... já desisti de tentar perceber quem não é!). É a aldeia das melhores férias de Verão da minha infância e adolescência! Pena não ir lá mais vezes, como ia dantes. Pena ainda não ter lá ido passar o Carnaval, como tantas vezes a Joaquina me aconselhou. Pena não ter lá ido às festas, que este ano foram mais cedo que o habitual e me trocaram as voltas.

Mas fui lá agora. Fui lá para saber quem eram e o que fazem os meninos que dão a cara às Produções Fictícias Ciborrenses, cujo blog, já tão popular como as comédias teatrais, ando a seguir, como não poderia deixar de ser.

Eles – sim, só eles, não há elas neste grupo, não por discriminação, mas por natureza, - chamam-lhe prontamente “um projecto inacabado”. Eu, que fui para saber o que era e entrei logo directa ao assunto com a pergunta “O que são as Produções Fictícias Ciborrenses?”, depois de os ouvir e partilhar da sua boa disposição, chamei-lhes “grupo de ciborrenses organizado na sua desorganização” e eles concordaram. Sim, pode ser isso. Mas também pode ser muito mais (ou muito menos). No fundo pode ser o que se quiser, sem compromissos assumidos, ao sabor da vontade e ao ritmo do bom humor. Mas não esquecendo: sempre sem compromisso.

Tudo começou em 2006 – embora haja discussão interna sobre o ano exacto da fundação do grupo, vamos assumir que foi mesmo há 4 anos atrás que as Produções Fictícias Ciborrenses tiveram início. O nome não surgiu logo, veio depois, muito na onda dos Gato Fedorento, mas sem plágios.

Surgiu nesse ano de 2006 a ideia de fazer um teatro de Carnaval. Há cerca de dez anos que não se fazia o tradicional teatro, o qual, durante décadas, foi apresentado pelo grupo de teatro do Ciborro, tão querido para os ciborrenses como o Rancho Folclórico. O então grupo de teatro ensaiava durante todo o ano para apresentar à população uma peça de teatro pela altura do Carnaval, por norma, peças de teatros de autores conceituados. Havia a preocupação de estudar as peças, criar as personagens, o guarda-roupa e os cenários. Em suma, pode dizer-se que a missão era levada muito a sério e agradava à população. Por qualquer motivo que agora não vem ao caso, o grupo desfez-se e a tradição do teatro de Carnaval adormeceu.



Adormeceu até ao dia em que, qual beijo do príncipe na bela adormecida, um grupo de famosos cavalheiros naturais do Ciborro, conhecidos pelas alcunhas/nomes artísticos de Pepe, Biléu, Da Bucha, Cajarana, Buchinha, Barruaça, Bita, Sarrafo, Perna, Chibinha, Cebolas, Barrancos Xixito, Paulinho e Manelito (sem que a ordem pela qual foram indicados tenha qualquer intencionalidade) deliberaram, democrática e sobriamente, e após muito sensatamente ponderarem, a bem da população do Ciborro e em nome das tradições da terra, ressuscitar a tradição do teatro de Carnaval, encarregando-se eles próprios de prepararem, ensaiarem e apresentarem uma peça de teatro nesse ano. (Bem, não terá sido exactamente desta forma e por esta ordem que tudo sucedeu, mas entrei no espírito dos “sketchs” e imaginei uma cena com um toque de heroísmo, quase como uma lenda.)


Avançando. A ideia foi concretizada e a estreia correu melhor do que o esperado. Sempre numa base de brincadeira, com muita improvisação e aldrabice à mistura, as Produções Fictícias Ciborrenses puseram a população a rir e iniciaram assim o caminho da fama – pelo menos no Ciborro, que afinal, é tudo o que interessa. Mais peças foram apresentadas, tanto no Carnaval como no espectáculo Prata da Casa, uma festa organizada no verão pelo Rancho Folclórico do Ciborro, e o resultado foi sempre o mesmo: a casa do povo do Ciborro cheia! Ai, perdão, agora é Casa de Cultura e Recreio do Ciborro (Bolas, e eles que me fizeram prometer que não escreveria Casa do Povo!).



O espírito é de bom humor. O princípio é saber brincar, até porque saber rir de nós próprios é uma virtude e é marca de personalidade. Como os próprios admitem, não se trata de verdadeiro teatro, nem têm a pretensão de ser os sucessores do antigo grupo de teatro que, como dizem, fazia as coisas a sério e bem e não assim. E este “assim” significa que o que fazem muitas vezes (se não todas) não é ensaiado com rigor ou pensado ao pormenor. Nasce das tertúlias que fazem no café, de um disparate que algum diz, do episódio que algum lembra, da ideia que algum atira para o ar, e que depois são desenvolvidas, mal ou bem, com o contributo de uns ou de outros, e, a final, até pode virar um “sketch” com piada. Tiram partido da comédia e fazem sátira, aproveitando para dizer umas quantas verdades a brincar. Afinal, é tudo ficção, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência e, como sabiamente diz o povo, a carapuça só serve a quem a enfia.
Entretanto, algures em 2007, salvo o erro, nasceu o Blog das PFC http://pfciborrenses.blogspot.com/ e tem sido através deste meio que, numas alturas mais que noutras, as Produções Fictícias Ciborrenses têm dado a conhecer as suas actividades e, principalmente, as notícias do Ciborro, sempre com uma pitada de brincadeira, claro está. Este ano, provavelmente, com um peso mais importante, já que não houve o teatro do Carnaval. Como se disse, nunca assumiram o compromisso, nem prometem que no próximo ano haja nova actuação. A ver vamos.


Voltando ao Blog. O Blog tem vídeos de alguns sketchs das produções Fictícias Ciborrenses, tem fotografias antigas, para a memória não morrer, e alguns dados relevantes sobre a aldeia (como trechos do livro Ciborro, uma aldeia diferente no Alentejo, da autoria da conterrânea Dra. Anastácia Salgado) tem sempre as últimas do que se passa no Ciborro e, na minha opinião, que acabou sendo corroborada pelos protagonistas desta reportagem, desempenha dois papéis muito importantes: por um lado, serve de elo de ligação com os ciborrenses emigrantes e, por outro, é um meio de divulgação dos eventos, actividades e preocupações da população do Ciborro. Tanto assim é que o Blog já serviu como meio de contestação do problema dos cortes de água no Ciborro, do mau estado da estrada e, há pouco tempo, foi meio de divulgação e cobertura do projecto “Limpar Portugal” que no Ciborro contou com cerca de 50 pessoas, entre miúdos e graúdos.


O grupo está para durar, seja como Produções Fictícias Ciborrenses ou não. E claro: nada de compromissos, que para isso já chega a vida real. Gostam do que fazem e concordam que vale a pena, seja pelo apoio demonstrado pelos ciborrenses e pela alegria que trazem, seja porque sentem que desta forma têm uma palavra a dizer sobre o estado da nação e sempre sobre o Ciborro, seja porque, acima de tudo, são amigos e se divertem. E, afinal, para que cá estamos?


O pior são as divergências e a falta de financiamento para as jantaradas. Deviam ser mais, porque é nessas alturas que toda a inspiração aparece. Também já houve alguns mal entendidos com pessoas que se sentiram gozadas em alguns sketchs, mas, dizem, são ossos do ofício e é pena que nem toda a gente tenha sentido de humor.
O melhor é o convívio e as gargalhadas, os momentos inesquecíveis. Quem diria que a filmagem de um sketch que envolvia duas personagens guardas republicanos ia virar um filme de apanhados por as pessoas acreditarem que se tratava mesmo de uma operação stop? Quem diria que num sketch em que se fazia referência ao famoso pianista António Rosado (natural do Ciborro!), o próprio estava mesmo presente e quase que subiu ao palco pensando que o chamavam!!??


Afinal, quem diria que este “projecto inacabado” ia dar frutos e entrar no livro de memórias do Ciborro? Quem diria...


Julho / 2010


Catarina Pinto Xavier

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